Aracaju (SE), 28 de janeiro de 2026
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 11/08/2018 às 22:52
Pub.: 13 de agosto de 2018

REDEMOINHOS :: Por José Lima Santana

José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br

José Lima Santana (Foto: Arquivo Click Sergipe)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Click Sergipe)

As ruas da cidade foram varridas por um redemoinho, que se formou no Beco do Fedor e saiu rodopiando pelas ruas e pelas duas pracinhas da cidade, que mais parecia um povoado dos confins do sertão. Cidade pobre e de gente paupérrima. Nela, o prefeito, aliás, o primeiro prefeito, pois se tratava de uma cidade nova, recentemente constituído o município, desmembrado de Baixão dos Negros, por obra e graça (ou desgraça?) da política tupiniquim. À cidade, o prefeito comparecia quando as verbas federais chegavam ao Banco do Brasil da cidade vizinha, ou seja, Baixão dos Negros. 

O coronel Neneca Teles de Biaxão dos Negros mandara na política local por mais de trinta anos, elegendo-se e elegendo seus prepostos, intercalados entre dois dos seus mandatos por muitas vezes repetidos. Perdera, porém, a eleição de 1962. Para prestigiá-lo, o governador do estado, que era do mesmo partido de Neneca, aprovara na Assembleia Legislativa a constituição do município de Alvorada. Pobre município! A sede municipal de Alvorada era um povoado paupérrimo. Uma coisa à toa. Na verdade, não era nada mais do que um arruado que se perdia entre cinco becos e dois arremedos de praças. Somente num país sem jeito poderia ser criado um município como Alvorada. Um desastre!

Naquela manhã, o redemoinho que se formou do nada, como sói acontecer com todo e qualquer redemoinho. No Beco do Fedor, onde o bicho nasceu, Dona Cristina de Zequinha Martelo persignou-se. Para ela, e para muita gente, o diabo estava encravado nos redemoinhos, para fazer estripulias. Roupas que quaravam nas cercas de arame farpado ou nas cercas de pau-a-pique foram arremessadas no ar e tangidas para certa distância. Mulheres que estavam por onde o redemoinho passava, seguravam as saias e vestidos. O diabo gostava de deixá-las em situação vexatória. 

Na Rua Coronel Neneca Teles, que era, na verdade, o principal Beco da nova e precária cidade, Tililico de Maria Gorda praguejou com o redemoinho: “Ô diabo do inferno, se soverta nas profundas, satanás de chifre e rabo”! Ao dizer isso, Tililico foi sugado pelo redemoinho e elevado à altura de uns dez metros. Quem viu o pobre ser arrastado, assegurou que o viu espetado pelo diabo com um tridente de fogo. Dele, ninguém mais teria notícias. 

Dona Maria Gorda tinha em Tililico o seu único filho. Viúva, entrevada, dependia do filho para o seu sustento. Tililico era empregado da Fazenda São Francisco. Vaqueiro e tirador de leite. Ganhava uma mixaria, mas era como se sustentava e sustentava a mãe entrevada. 

O prefeito da cidadezinha perdida nos cafundós de Judas era Rodolfo Teles, filho do coronel Neneca. Ao tomar conhecimento do ocorrido com Tililico, o prefeito apresentou-se na casa de Dona Maria Gorda. Prometeu à pobre mulher que mandaria um grupo de pessoas procurar o sumido. Mandaria o padre Gregório Alencar de Baixão dos Negros celebrar dez missas, se preciso fosse. Mandaria buscar no Morro do Cotovelo o afamado xangozeiro Pai Paulinho do Bamburi, que era vezeiro em desmanchar artes do zambeta. O que fosse necessário para trazer Tililico de volta, o prefeito haveria de fazer. Políticos...! O que eles, ou muitos deles, não eram capazes de fazer, para enganar o povo! 

Rodolfo Teles deixou o dito pelo não dito, como era de se esperar. Afinal, promessas de muitos políticos não eram para ser levadas a sério. 

Coitado do Tililico. Passaram-se as horas. Passou-se um dia. Passaram-se alguns dias. Nada. Nenhuma notícia de Tililico. Boatos, porém, eram muitos. Houve quem dissesse que ele estava espetado no para-raios da igreja do Bonfim, na cidade de Rancho Alegre, quinze léguas distante de Alvorada. Outros diziam que ele fora arrebatado para os confins do inferno por ter matado um indefeso gatinho, quando era menino, para se vingar da dona do bichano, Dona Eulália do finado Zenóbio Pé de Pato, que fizera Dona Maria Gorda dar-lhe uma surra desgraçada por causa de umas mangas que ele surrupiara da mangueira espada do quintal da mulher de Pé de Pato. E muitos outros boatos rolaram. Nada de concreto, porém.

Um ano. Dois, três, quatro, cinco anos se passaram. Nada de Tililico. Dona Maria Gorda foi-se entrevando cada vez mais, desde que Tililico fora carregado pelo redemoinho. Dela cuidava a caridade dos vizinhos, especialmente Margarida de Tina Fuxico, benemérita senhorita que zelava pela igrejinha da jovem cidade. 

Manhã de março. Fim de verão. Os primeiros ventos do outono começavam a levantar poeira. Era o prenúncio do inverno que costumava se antecipar, invadindo o outono. Nos trópicos, as estações do ano seguiam o seu próprio curso. A cidade sonolenta parecia cada vez mais com sono. Uma leseira dominava a cidade naquela manhã. De chofre, um redemoinho veio vindo da estrada das Bananeiras, principal entrada da cidade. Era quase um pequeno tufão. Portas e janelas foram cerradas. Ninguém se atreveu a enfrentar o redemoinho. Todos se lembravam de Tililico. O diabo voltava a Alvorada. 

Em frente à igrejinha zelada pela senhorita Margarida de Tina Fuxico, o redemoinho despejou um fardo e seguiu viagem. As pessoas foram saindo de suas casas. A senhorita Margarida, benemérita e fina flor da cidadezinha, abriu a porta da igrejinha dedicada a Nossa Senhora do Desterro. Ela foi a primeira pessoa a ver e a reconhecer o fardo despejado pelo redemoinho. Era ninguém mais do que Tililico. Um milagre! E ele estava em perfeitas condições físicas. Todavia, parecia um tanto quanto envelhecido. Cabelos grisalhos, barba grande, quase batendo no peito. Sim, só podia mesmo ser um milagre. Deus tinha atendido as preces de Dona Maria Gorda, que durante todo aquele tempo não se cansou de desfiar o terço, dia e noite. 

Aos poucos, as pessoas foram se chegando para junto de Tililico. Logo, um cortejo se formou até a casa de Dona Maria Gorda. A pobre senhora entrevada abraçou o filho, aos prantos. “Nossa Senhora ouviu as minhas preces, meu filho. Ela ouviu”, disse a mãe de Tililico, entre lágrimas. A cidade inteira entrou em rebuliço. Todo mundo, que não era tanta gente assim, acorreu à casa de Dona Maria Gorda. Afinal, tratava-se de um milagre. O redemoinho soverteu no mundo, levando Tililico e o devolveu cinco anos depois. Só podia ser um milagre. 

Nem tudo, porém, estava consumado. Seguindo o seu caminho, com ou sem o diabo no seu meio, o redemoinho topou, na estrada do Boqueirão, com o prefeito Rodolfo Guedes, cujo Jeep estava com um pneu furado. O olho do redemoinho, quase tufão, pegou o prefeito de cheio e o carregou. Até hoje aguarda-se a volta do prefeito fazedor, mas não pagador de promessas.

*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE

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