Aracaju (SE), 28 de setembro de 2020
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana
Em: 05/11/2016 às 02h14
Pub.: 12 de novembro de 2016

Santa Lindinalva :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br

José Lima Santana (Imagem: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Imagem: Arquivo Pessoal)

“Manuquinha!” Silêncio. “Ô Manuquinha!”. Silêncio. “Manuquinha de Sá Filó!”. Silêncio. Valter de Roque Viriato quase botou os bofes pela boca chamando o ferreiro Manuquinha de Sá Filó ou seja Manoel dos Santos Gouveia sujeito na flor da idade embora já fosse viúvo e pai de dois filhinhos gêmeos. E o que queria Valter com Manuquinha àquela hora manhãzinha de sol bêbado de sono que saía do seu canto sem pressa alguma para girar pelo infinito de Deus? Queria dar uma notícia ruim. Lindinalva de Beto Ribeiro irmã de Sá Filó logo tia de Manuquinha deu de comer uma baita buchada de bode ou como dizia Gerson do Matozinho um buchê de bôdê como teria dito um ex-presidente da República em viagem ao Nordeste. Disso porém nenhum conhecido tinha prova. Especulações meras especulações virilizadas nas redes sociais. Somente porque o antigo mandatário era pessoa chique não podia experimentar um bom amarradinho uma buchada caprichada como a minha tia Nazaré por exemplo fazia e que eu comia lambendo os beiços? Ora essa! Sim mas o que tinha a ver a buchada degustada por Lindinalva de Beto Ribeiro afamado criador de bodes e de ovelhas de boas raças? Pobre mulher! Tivera uma disenteria da moléstia. Desmanchara-se em lodo de escorrimento intestinal como dizia Dona Chica de Ferreirinha parteira e rezadeira das boas.

Pois não foi que Lindinalva baixou ao hospital? E não foi que ela veio a morrer desmanchando-se em putrefato líquido de saída pelos fundilhos? Foi sim! Bateu a caçoleta a pobre mulher. Era ainda uma mulher fornida até então sadia ao menos assim parecia apesar dos quase setenta anos na cacunda. Não só era tia de Manuquinha de Sá Filó como era também sua madrinha de batismo. Mulher devotada à Igreja zeladora da capelinha do povoado Atraso de Vida dedicada a Nossa Senhora da Luz. Permitam-me os leitores uma explicação: um vereador acabara de apresentar na Câmara Municipal um projeto de lei para alterar o nome do povoado. Afinal Atraso de Vida não era um nome decente para uma povoação que segundo se acreditava não ia para frente justamente porque o nome não ajudava. Atraso de Vida... Com um nome desses nem Jesus dava jeito. O projeto de lei nominava o povoado de Nossa Senhora da Luz. Criou-se porém um problema na Câmara de Vereadores. O vereador Irmão Tonhão evangélico bateu o pé fez um discurso inflamado contra a proposta para o novo nome do povoado Atraso de Vida. Nada de Nossa Senhora! Nossa Senhora era pura idolatria dizia ele. Os demais vereadores se revoltaram contra o Irmão Tonhão. Embora na votação o placar viesse a ser oito a um a favor da mudança do nome a falação do Irmão Tonhão foi tão veemente que o presidente da Câmara Tertino Bocão resolveu suspender a sessão ficando a votação para outro dia. Bocão era um apaziguador. Era da sua própria natureza tirar as coisas por menos dar um jeito em tudo que jeito podia ter.

Bem. Já desviei o rumo da prosa. Eu até já tinha deixado de lado essa mania danada de enrolar os leitores. Desculpem-me. Voltemos à morte de Lindinalva de Beto Ribeiro tia e madrinha de Manuquinha de Sá Filó. Comoção no povoado. E nas cercanias. O caixão com a defunta nem tinha chegado da capital do hospital onde ela falecera e já uma multidão enchia a casa e o terreiro do criador de bodes e ovelhas de raça agora viúvo. As três filhas da morta berravam desesperadas. Uma neta adolescente desmaiou umas três vezes. Era apegada por demais à avó que a bem da verdade era uma pessoa da melhor qualificação. Dentro e fora da família. Querida por todo mundo. Um exemplo de esposa mãe e avó. De irmã tia e vizinha. Ah e coisa supimpa ela tinha uma voz maviosa na cantoria da capela nas missas e novenas bem como no cantarolar rotineiro ao dedicar-se aos afazeres domésticos! Cantava como uma cotovia como um sabiá como um curió que canta de estalo ou de corrida. Criador de passarinhos é quem entende desse bolodório de cantoria de bichos de pena e bico afiado. Severo do finado João de Duca do Campo Largo era quem melhor conhecia do assunto. Mas um irmão dele sujeito descarado um tal de Antero do finado João de Duca um dia vendeu um bem-te-vi a um gringo na capital como se fosse um pássaro especial que segundo o descarado cantava até o hino nacional. O gringo trabalhava para uma empresa que prestava serviços à Petrobras e muito pouco falava da nossa língua. Enrolava umas poucas palavras na língua de Machado de Assis. O gringo pagou um dinheirão pelo passarinho que como todo mundo sabe não canta nada a não ser “bem-te-vi bem-te-vi bem-te-vi”. Eh mundão perdido de gente ainda mais perdida!

Já dei para mudar de novo o rumo da prosa. Defeito infeliz que eu tenho e não consigo corrigir. Vamos que vamos. Lá pelas cinco da tarde foi que o caixão com o corpo de Lindinalva de Beto Ribeiro chegou. Uma novidade para a gente dali do Atraso de Vida: o caixão tinha um espelhinho por onde se podia ver o rosto da defunta. Isso causou um alvoroço nas pessoas. Todo mundo queria dar uma olhadinha no rosto amarelado de Lindinalva que tivera em vida a voz mais afinada que quaisquer coros de capelas ou até mesmo de boas Igrejas Matrizes poderiam ter fosse lá onde fosse.

Dona Margarida de Marieta de Zé Simplício ao olhar pelo espelhinho achou que o rosto de Lindinalva estava muito suave sereno como o rosto de uma santa. Nem parecia que tinha batido as chinelas. Parecia dormir. Era como se a sua alma já estivesse nas alturas da morada celeste que ela bem merecia. Inesperadamente uma pomba branca que ninguém pôde afiançar se era mesmo pomba ou pombo pousou sobre o esquife de Lindinalva. Aquilo espantou as pessoas. E foi então que Antero do finado João de Duca do Campo Largo aquele que vendeu o bem-te-vi que cantava o hino nacional espalhou entre as pessoas simplórias e crédulas que Lindinalva de Beto Ribeiro criador de bodes e de ovelhas de raça irmã de Filó a mãe de Manuquinha tinha virado santa. E começou a vender retratos da defunta a partir de cópias que ele reproduziu de uma foto antiga que enfeitava a parede da sala da casa da morta que ele conseguiu surrupiar. Fez um dinheirão. Era o que corria no povoado Atraso de Vida ao tempo em que eu por lá passei há mais ou menos trinta anos.

Antero parou de explorar a memória da finada Lindinalva quando Manuquinha aplicou-lhe uma surra. Merecida. Afinal Lindinalva não fora em vida nenhum bem-te-vi para ser vendida depois de morta.

(*) DIÁCONO. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE.
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