03 de outubro de 2016
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

Corrupção em mais uma eleição :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


Vivia-se o clima de mais uma eleição. Os candidatos a prefeito tanto prometiam mundos e fundos, como soltavam uma grana solta. A compra de votos corria frouxa de lado a lado. E como os candidatos mentiam! Quasee todos, entre candidatos a prefeito e a vereador. Talvez se salvassem um ou outro. Exceções sempre havia. Eram raras, mas podiam ser encontradas quando um cego perdia um vintém. O maior mentiroso era Juca Piroba, candidato a vereador dos udenistas. Era comerciante. Tinha um sortido armazém de secos e molhados. E vivia “molhando” o bolso com o dinheiro da Prefeitura. O prefeito Nito de Zominho, da UDN, era seu correligionário e sempre lhe arranjava um jeito de embolsar “algum”, como se dizia no vulgo. “O dinheiro da viúva não dá pra nada. Afinal, Nito e Piroba enchem o rabo e o povo se arromba”, dizia Mestre Belarmino, barbeiro dos bons no ofício e na goela escancarada. 
Juca Piroba era natural do povoado Piroba, distante da sede municipal cerca de duas léguas bem medidas. Bruto que só vendo. Era mais bruto do que coice de jegue. Como tinha dinheiro, elegera-se vereador nas três últimas eleições. Mentia às escâncaras. Prometia mundos e fundos. Quase nada do prometido era cumprido. Mas, o dinheiro valia. Pingava de mão em mão. Uns trocados aqui, um corte de pano ali, um chinelo acolá, uma perereca mais adiante. Perereca, esclarecendo ou lembrando, era uma dentadura, preciosidade para os eleitores, e, especialmente, para as eleitoras que queriam fazer bonito, tapando, por assim dizer, a boca banguela. Um sorriso com dentes completos sempre fora uma beleza. E, em época de eleição, uma perereca vinha a calhar. Juca Piroba, portanto, era bruto, mas era ladino. Sabia comprar votos. 
Naquela eleição, uma novidade ocorreria. Nada igual havia acontecido antes por ali: o grêmio escolar do Ginásio inaugurado naquele ano convidou os candidatos a prefeito para um debate. Algo inusitado. Ali e no estado. Os candidatos, Pedro Bigorna, da UDN, e Zé de Pipito, do PR, concordaram em comparecer. O juiz eleitoral e o promotor foram comunicados. O juiz solicitou ao delegado de polícia, tenente Marcelino Peixoto, que desse garantia para a manutenção da ordem, pois se temia na cidade a ocorrência de algum fuzuê por parte dos partidários dos dois candidatos. Na eleição anterior até morte teve. Um cabo eleitoral do vereador Chico Bala meteu um tiro nas fuças de um eleitor de Nito de Zominho, o prefeito cujo mandato estava para extinguir-se. 
O vereador Zé Luiz de Amintas do Brejão, arrojado e arruaceiro, estaria prometendo um confronto de seus apaniguados com o pessoal “do outro lado”, ou seja, do PR. A panela estava esquentando. Poderia ferver. Falava-se até na possibilidade de um tiroteio, uma vez que Candinho de Tito Fura Bucho, cabo eleitoral de Zé Luiz, prometia levar um grupo de cabras bons com o dedo no gatilho, lá do povoado Risca Faca, para qualquer “situação emergencial”, como ele mesmo denominava um eventual arranca-rabo, isto é, um enfrentamento entre os dois agrupamentos políticos. 
O tenente Marcelino Peixoto buscaria reforços policiais nas duas cidades mais próximas. A paz social seria mantida. Ele estava ali para aquilo. Não haveria de regatear, de fugir às responsabilidades que lhe eram inerentes. Aliás, sujeito destemido e durão estava ali. Chegara à cidade logo após o rififi entre Joca Pinto e Mulatinho, que andaram trocando tiros no meio da rua, assustando o povo e causando danos a muitas casas comerciais. Foi um tiroteio infeliz. Os dois, pistoleiros afamados, eram rivais e encontraram-se na Praça do Comércio. Foram disparados tiros para todos os lados. Ambos saíram feridos, mas não morreram. O tenente, mal saído da Academia de Polícia, meteu o pé no mundo e prendeu os dois. A cidade respirou aliviada. Logo, ninguém se metesse a besta para causar encrenca grossa durante o debate, antes ou depois. 
O debate foi marcado para dois dias antes da eleição. A cidade estava eufórica. Os partidários dos dois candidatos agitavam-se. Cada lado cantava a vitória. Pelo visto, os dois candidatos empatariam. 
Enfim, chegou o dia do debate. Bandeiras agitavam-se em frente ao Ginásio. Um formigueiro de gente para lá e para cá. O policiamento estava a postos. Nas entradas da Praça onde se situava a escola, soldados bem armados vigiavam e davam baculejos em todo mundo. A tranquilidade seria garantida. Nemésio Exator seria o mediador do debate. Ele foi escolhido por não ser eleitor da cidade e por ser um agente público. Embora os udenistas desconfiassem dele, pois sua família era muito politiqueira na Várzea Grande, cidade não muito longe dali, aceitaram a mediação. 
Tudo pronto. O debate começaria às 16 horas. Pedro Bigorna, da UDN, era um bronco. Quase não falava coisa com coisa. Na verdade, ele não falava: grunhia. Mal assinava o nome. Ou melhor, desenhava. A sua assinatura era, a bem dizer, um amontoado de garranchos. Fazendeiro abastado. Feito candidato contra a maior parte dos partidários do prefeito Nito. Seria, portanto, presa fácil para Zé de Pipito, do PR, escrivão do registro civil, com curso científico tirado em colégio interno da capital. O candidato do PR engoliria o candidato da UDN. Antes das 16 horas, ali estava Zé de Pipito e sua turma. Às 16 horas em ponto, chegou Pedro Bigorna. Nada, porém, do mediador, o exator Nemésio. O relógio marcou 17 horas. Marcou 18 horas. Nada do mediador. 
O debate não ocorreu. Zé de Pipito enfureceu-se. Confiava no seu taco para acabar com o adversário. Já Pedro Bigorna não se estressou como o outro. Estava tranquilo, sorridente, lorotando com os seus. Pois bem. Dias depois, passada a eleição e com a vitória de Pedro Bigorna, descobriu-se que o vereador Juca Piroba, udenista, tinha “molhado a mão” do exator Nemésio, para que este não comparecesse ao debate. Os partidários de Zé de Pipito alardearam que tinha havido corrupção eleitoral. O exator teria recebido uma bolada de quinze contos de réis, isto é, de quinze mil cruzeiros. Nunca mais apareceu na cidade. Fora transferido para a região sul do estado.

(*) DIÁCONO. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL, DA ASLJ E DO IHGSE.

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