26 de setembro de 2016
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

Por favor, deixem-me continuar a sorrir :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


Nós brasileiros sempre tivemos bom humor. Sempre gostamos de sorrir. Até de nós mesmos. A alegria nos contagiava. E contagiava a “gringada”, que por aqui passava. Daí, talvez, o nosso gosto pelo bom futebol, pelo carnaval, pelos festejos juninos, no caso mais especial do Nordeste etc. No geral, nós trabalhamos. Não sei se por necessidade e por gosto, conjuntamente, ou se tão somente por necessidade. Porém, nós sempre trabalhamos. E alguns brasileiros sempre trabalharam e trabalham em condições terríveis e com salários aviltantes. Estes dão um duro danado. Sofrem, mas labutam no dia a dia, cavando com suor, com muito suor, o pão de cada dia. 
Nos últimos meses, contudo, estão querendo arrancar a fórceps o direito de continuarmos sorrindo, de continuarmos sendo a “cara da alegria”, apesar de tantas dificuldades para viver ou apenas sobreviver. As questões políticas que vivenciamos nos têm dividido em dois grupos antagônicos. Mas, com um antagonismo desvairado, indócil, terrível, que nos cega, que nos torna rivais, e, mais do que isso, “inimigos” (é claro que aqui vai uma dose muito grande de força de expressão) virtuais ou presenciais. O que estão fazendo conosco? O que nós estamos fazendo com nós mesmos? Passamos a ser de um lado, “cochinhas”, e, do outro, “vermelhinhos aloprados”. Eu não quero ser uma coisa nem outra. Eu não sou nem uma coisa nem outra. Afinal, eu não sou coisa. Não quero ser “coisificado”. Eu quero o direito de continuar sorrindo. E quero ver os meus amigos, os meus conhecidos também continuando a sorrir. Que a alegria não nos deixe. 
Há pouco tempo, o futebol passou a nos dividir. Lamentavelmente. As gozações de lado a lado, entre os torcedores de clubes diversos, deram lugar à violência perpetrada pelas famigeradas torcidas organizadas. Ou seja, as arquibancadas e, mais ainda, as ruas, tornaram-se palcos de embates embrutecidos, de derramamento de sangue e de mortes. Esse é um quadro difícil de mudar, mas que precisa ser mudado. Como? Quando? Sabe-se lá! Porém, é preciso mudar. 
Ultimamente, as tensões políticas nos tornaram céticos. Fizeram de nós, no geral, dois grupos de caramujos. Com exceções. Os caramujos se fecham em torno de si mesmos. Nós também nos fechamos. Tornamo-nos intolerantes. Antagônicos. Rivais. De uma rivalidade embrutecida, como as torcidas organizadas dos clubes adversários em cada cidade. Nas torcidas organizadas há, evidentemente, bandidos infiltrados. Disso todos nós o sabemos. Todavia, entre nós, que tomamos posições políticas diferentes, não há bandidos. Há brasileiros que estão perdendo a beleza do sorriso. A grandeza da tolerância. Isso é preocupante. Isso é triste. 
Todos nós, brasileiros e brasileiras, gostamos de política. Em regra. E toda regra tem exceção. Aliás, já falei em exceção lá em cima. Se cada brasileiro é tido como um técnico em futebol, o mesmo pode-se dizer quanto a cada um vir a ser um analista político e, sobretudo, um apaixonado político, por esta ou aquela ideologia, por este ou aquele partido (embora a questão partidária conta muito pouco em face do esfacelamento das nossas agremiações partidárias, a maioria delas perdida no lamaçal do fisiologismo barato e nefasto), e, mais ainda, em face de alguns líderes, que cativam alguns e são desprezados por outros. Em torno de um ou de outro líder político, criou-se uma situação radical: ama-se ou odeia-se. E o ódio está prestes a tomar conta das pessoas. O que estão fazendo conosco? O que estamos permitindo que se faça? 
As ruas estão cheias de pessoas que parecem prontas a se agredir, a qualquer hora. Alguns casos já se têm verificado. Por questões políticas. Questões de preferência. Provavelmente, jamais vivenciamos uma situação tão abominável como a que agora se nos apresenta. A grande mídia tem contribuído para isso. Estamos usando as redes sociais para difundir isso. Líderes políticos carismáticos, que se encontram acuados, com razão ou sem razão, nos instigam a isso, no pro ou no contra. E nós, em grande parte, nos tornamos uma “massa ignara”. Mas, nós não somos uma massa ignara. Não somos. Precisamos reagir a isso. Precisamos descobrir o meio adequado para fugir dessa situação. Afinal, nós não somos “massa de manobra”. Não somos bois a caminho do pasto. Muito menos do matadouro. Somos pessoas. Somos o povo brasileiro. De nós emana todo o poder. Ao menos é o que diz retoricamente a Constituição Federal. Que a retórica se faça valer. De verdade. Quem tem esse poder, tem a força. Não a força bruta. Mas, sim, a força da civilização que venceu a força bruta. Como disse Tobias Barreto, “o Direito é a força que venceu a própria força”. A civilização derrotou a barbárie. Há muito tempo. Que não nos seja permitido retroceder. 
Por favor, deixem-me continuar a sorrir. Não me arranquem o direito à alegria. Que tudo se resolva na forma da Constituição. Do ordenamento jurídico estabelecido. Que as instituições democráticas sejam preservadas. Que a Justiça (a Justiça sem subterfúgios e sem máscaras, sem “pavonismo” e sem fantasias) triunfe. E que a Justiça seja respeitada por todos. Que a impunidade seja varrida. Que o Brasil respire sem os corruptos que lhe aviltam. Os que promovem a corrupção ativa e passiva. De todos os lados. De todos os lados! Que a espada da Justiça caia sobre todos eles. Sem exceção. Sobre esses vermes que sangram os cofres públicos. Que usurpam os direitos do povo a uma vida digna. Que a cidadania se fortaleça. Que a dignidade da pessoa humana chegue às periferias geográficas e às periferias existenciais, como disse o Papa Francisco. 
Permitam-me repetir: por favor, deixem-me continuar a sorrir. E que todos os brasileiros possam voltar a sorrir também. Isto é, que tenhamos, sim, verdadeiros motivos para sorrir. Novamente. E sempre.

(*) DIÁCONO. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL, DA ASLJ E DO IHGSE.

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