16 de agosto de 2016
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

Naquela quarta-feira eu perdi o meu pai :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana ( Foto: Arquivo pessoal)

José Lima Santana ( Foto: Arquivo pessoal)

Naquela quarta-feira, silêncio... Que triste dia! Um amigo chamou-me à porta da sala de aula, na Faculdade de Direito. Disse-me que ele estava muito doente e que eu deveria ir a Dores, a fim de trazê-lo para Aracaju. Não tinha lógica nenhuma naquela afirmação. Se ele estivesse muito doente, já deveriam tê-lo trazido. Eu não precisaria ir buscá-lo. De pronto, eu perguntei: “Meu pai morreu, não foi?”. O portador da notícia disse “Sim”. O mundo desabou sobre os meus ombros. Na noite anterior, eu deixei o meu pai em casa, na calçada, brincando com alguns meninos, nossos vizinhos. Ele adorava as crianças. Lembro-me muito bem que eu disse, sorrindo: “Um homem velho desses, brincando com crianças! Procure o que fazer!”. Tomei a bênção. Fui embora. Ele não estava doente. Aparentemente.


Pela manhã, o coração deixou de bater, antes que ele se levantasse. No dia anterior, ele visitou os melhores amigos: Venuto, Cambotá, Edinaldo, Tota, Pai João e outros. Visitou os pais da minha mãe. Por último, ele passou um pedaço da noite com a mãe dele, minha avó Zulmira. “Seu” Zezé, barbeiro, passou e cumprimentou a minha avó: “Como vai Dona Zulmira?”. Ela respondeu: “Aqui, ‘seu’ Zezé, aguardando a morte”. Meu pai emendou segundo vovó me diria depois: “Mãe já enterrou três filhos, ‘seu’ Zezé e vai enterrar mais um”. Já tinham morrido minha tia Nazaré (1972) e meus tios Carivaldo (1973) e José (1975). Meu pai morreu no dia 9 de março de 1979, aos 45 anos de idade. Muito novo para morrer. Novo demais. Mas, na verdade, não há idade para ir-se embora. A “dona” da foice afiada vem sem ser chamada. Ela simplesmente vem. Tétrica. Terrível. Todavia, a fé no Cristo de Deus, a confiança na ressurreição como nos foi prometida, amenizam a dor da separação. Dor forte, lancinante. Perder um ente querido é demasiadamente sofrido. Apesar da fé. Os laços desfeitos é que nos fazem sofrer. A ausência da pessoa amada dói.
Naquela quarta-feira, a mais terrível da minha vida, papai se foi. Lembro o poema “Fim de inverno”, de Juan Ramón Jimenez: “Ir-me-ei embora / e os pássaros ficarão cantando”. Papai rendeu-se, naquela manhã, ao canto dos pássaros. Rendeu-se o seu coração, que era frágil, mas nem ele o sabia. Não quis mais bombear o sangue. Pifou de vez.


Nunca mais eu teria o meu pai para lhe tomar a bênção e ouvir a resposta, na voz grave e suave, ao mesmo tempo: “Deus lhe abençoe e lhe faça feliz!”. Nunca, nunca mais...! Nunca mais o seu olhar firme, que nos dizia tanto, a mim e ao meu irmão. Por exemplo, se estávamos na praça jogando bola ou noutro folguedo qualquer, e ele passava, olhava para nós e o olhar poderia ser de aprovação ou de desaprovação por estarmos ali com os colegas de brincadeiras. Nós já compreendíamos a mensagem. Sabíamos ler nos seus olhos. Ficávamos ou não. Nunca erramos. Quando o olhar era de reprimenda, que susto! Saíamos calados. Papai nunca foi de nos espancar. Uma vez ou outra, meu irmão levava umas poucas “cinturãozadas”. Quanto a mim, só apanhei uma vez, porque fiquei mangando do meu irmão que acabara de entrar no cinto. Era para que eu aprendesse a respeitar a dor do meu irmão. Assim o meu pai me disse. E eu aprendi, logo, logo. Besta eu não era. Nem um pouco.


Meu pai era do tempo em que a família girava em torno do casal, com a prevalência do pai, também marido, claro. O perfil paterno ainda servia de timoneiro. O barco familiar remava e vencia as corredeiras encontradas ao longo do leito do rio. Tinha-se segurança. O pai era o grande referencial. A âncora. O alicerce. Ele poderia até mesmo ser rude, analfabeto, ou algo parecido. Mas, em suma, era o titular. Era o dono da bola. O meu pai era desse tipo. Fora do ambiente familiar ou do círculo de amigos, ele era sisudo. Porém, no fundo, no fundo, ele era muito brincalhão. Aliás, isso é coisa de família. Graças a Deus. Eu tive a quem puxar como se diz no vulgo.
Meu pai...! Como eu queria poder, neste fim de semana, “bater boca com ele” por causa do futebol. Ele torcia pelo Confiança e eu pelo Sergipe. Mas, éramos flamenguistas. E ainda assim, discutíamos muito por causa deste ou daquele jogador. Um que eu não gostava, mas que ele admirava, ou vice-versa. E o pau quebrava nas discussões. Como eu queria, agora, sentar-me à mesa, ao seu lado, para devorarmos uma quantidade considerável de doces. Bem, isso, contudo, já não seria mais possível, por causa do meu diabetes. Ah, doença danada! Como eu queria, neste fim de semana, sentar ao seu lado para almoçar uma baita rabada, uma galinha caipira, um lombo de frigideira de barro, um sarapatel, uma moqueca de curimã, o peixe que ele apreciava, e que eu ainda hoje gosto de comer. Quem sabe, uma feijoada...? Ah, no tempo do meu pai, comíamos feijoada todas as semanas! Às vezes, na terça-feira e na sexta-feira. Adorávamos. E a minha mãe se esmerava para cozinhar as boas comidas sertanejas.
Como eu queria estar discutindo com meu pai sobre os jogos das Olimpíadas. Especialmente, claro, no caso do futebol. O que ele não haveria de dizer de tantas vergonhas que o futebol brasileiro vem passando nos últimos tempos? E o que diria ao ver o time feminino. Certamente, ele iria gostar muito. Meu pai? Ah, como eu o conhecia tão bem! O negão era dez! Farrista. Gostava de molhar a goela. Apreciava um carteado. Marchante inigualável no corte das carnes para levá-las à salmoura. Carne de sol de “seu” Raimundo era carne de sol de primeiríssima qualidade.
Um dia, o meu pai disse ao meu tio José, que ele chamava “Dé”, enquanto todos o chamavam “Danda”, que eu não tinha nascido para o trabalho pesado. Aliás, ele era o único da família de seis irmãos a nominar assim o irmão mais velho: “Dé”. E como eles eram ligados! O mais velho e o mais novo dos irmãos. “Seu” Raimundo me criou para estudar. Pagou escola, desde o primário e até o segundo grau, para que eu estudasse. Eu já disse que papai era farrista. Logo, não posso afirmar que ele foi um bom marido para a minha mãe. Ela que o diga. Entretanto, ele foi um pai “arretado”. Topado de bom. Foi uma pena que eu o tive por tão pouco tempo. Eu estava começando o terceiro ano do curso de Direito. Primeira semana de aula daquele semestre. Sim, o mundo desabou sobre os meus ombros.


Perder o meu pai estava fora de cogitação. Mas, eu o perdi. Lembro que, a caminho do cemitério, na rua que chamávamos de “Canto Escuro”, um primo abraçou-se comigo e outro primo também. Um deles disse: “Nós não temos mais pai nem tios”. Caíram num pranto desmedido. Eu não consegui me segurar. Os pais deles, meus dois tios paternos, como está dito acima, já tinham falecido. E naquela quarta-feira foi a vez do meu pai. Três famílias órfãs de pai. Todavia, pelo que pudemos aprender com eles, ousamos tocar a vida. Tocamos. Com ou sem solavancos, nós tocamos as nossas vidas.


Ah, como eu queria, neste fim de semana dedicado aos pais, poder contemplar a face do meu pai! Não posso. Há trinta e sete anos, eu não posso.
E, como eu não posso contemplar e abraçar o meu pai, peço licença a todos os filhos para também poder abraçar todos os pais. Que JESUS CRISTO os proteja!


 


(*) DIÁCONO. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL, DA ASLJ E DO IHGSE.


Publicado no Jornal da Cidade, edição de 14 de agosto de 2016. Publicação neste site autorizada pelo autor.


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