09 de julho de 2016
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

PAU DE CEGO :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana ( Foto: Arquivo pessoal)

José Lima Santana ( Foto: Arquivo pessoal)

O nome de verdade, passado na Igreja e no cartório, era João Vicente Peixoto. Mas, o nome de valimento na boca do povo era Pau de Cego. Sabem os leitores como é pau de cego em rebuliço, não sabem? Se um cego rodopiar o pau que lhe serve de balizamento ao caminhar sozinho, sem guia, o dito pode bater em qualquer um ou em qualquer coisa. É tão cego quanto o dono, com todo o respeito que merecem os cegos, que lutam pelo reconhecimento dos seus direitos, seja lá onde for. Que sejam, pois, objeto de políticas inclusivas em todo tempo e lugar.
Porém, tornando a João Vicente, vulgo Pau de Cego, ali estava um sujeito de bofes ruins, quando alguém descumpria com a palavra que lhe fora empenhada. E se fosse uma questão de dívida para com ele, aí então o caldo entornava de vez. Pau de Cego era do povoado Angico de Cima, que ficava muito distante do Angico de Baixo. Aquele, fértil, com terras boas na medida certa para pastagens e para todo tipo de lavoura. Este, repleto de terras ruins, terras carrasquentas, onde mal e mal davam umas espigas de milho meio banguelas. Mas, o povinho dali era girento. Muita gente vivia do comercinho de feira, montando barraca aqui e ali, de sábado a segunda- feira, que eram os dias das feiras das redondezas.
No Angico de Cima, Pau de Cego tinha boa solta de gado mestiço. Boa roça de milho e algodão, ano em riba de ano, salvo nos períodos em que as chuvas rareavam, ou seja, nos tempos bicudos em que alguém fechava as torneiras do céu. Um desastre! Pobre Nordeste sofrido, século após século... E na pequena fazenda de quinhentas tarefas sergipanas, Pau de Cego vendia regularmente umas cabeças de gado gordo aos marchantes da cidade, que costumavam fazer o pagamento logo após o fim da feira. Era o costume do lugar.
Celso de Pedro Carrapeta, que tinha esse apelido porque já tinha rodado meio mundo, não era o tipo de marchante que um fazendeiro vendia bois para o abate e ficava sossegado. Gostava de atrasar em um, dois e até três dias o pagamento ajustado. E, por vezes, pagava faltando uma beira. E olhem bem que ele não era dado a festas, bebedeiras, jogatinas e nem mesmo ao mulherio de portas abertas. Não. Era um sujeito caseiro e de pouca família, ao contrário dos dois irmãos, que eram apaideguados, cada um com uma récua de filhos de faltar dedos nas mãos para a contagem. João Vicente era mofino na arte de fazer meninos. Tinha um filho. E só.
Sabia-se lá o motivo, mas Pau de Cego vendeu duas rezes a Celso de Pedro Carrapeta, fato antes jamais acontecido. “Pagamento na segunda-feira à noite, hein seu cabra? E não vá faltar, viu?”, recomendou Pau de Cego ao marchante remanchão. A recomendação do fazendeiro entrou por um ouvido e saiu pelo outro, ligeirinho, ligeirinho. Segunda-feira à noite. Estava quase na hora de Pau de Cego recolher-se. Olhou o relógio de parede, na sala e na qual a fresca do começo de setembro entrava pelas janelas do oitão, abertas. Era uma aragem gostosa, que prenunciava o fim do inverno. E eram quase nove horas. Nada do marchante. Pau de Cego impacientou-se. Caminhou até a calçada. Dali foi até à esquina de Totonho de Loló, uns quarenta metros adiante. Olhou para o lado do bar de Cirilo Cigano. Nem visagem de Celso marchante. Retornou para casa. Praguejou. O filho de Pedro Carrapeta não sabia em que encrenca estaria para entrar. Ninguém lhe passava a perna. “O que é meu, é meu e o boi num lambe”, costumava dizer. Dez horas. Dez horas e meia. Nada. Pau de Cego foi dormir cego de raiva.
Dia amanhecido. Pau de Cego bateu-se para a casa de Celso, os últimos galos cantando já depois da hora. Os galos preguiçosos estavam como Celso, fugindo dos compromissos. Bateu na porta fechada. A mulher de Celso veio atender. O marido tinha viajado para a capital, visitar um tio muito doente e que precisava da ajuda dele. Era o tio Valdomiro, que era como um pai para ele. Pau de Cego bufou. Voltou para casa. Não poderia discutir com uma mulher. Ainda mais porque não lhe vendera absolutamente nada. Passaram-se os dias. Semanas. Nada de Celso dar a cara. Pau de Cego mandou umrecado para Celso: “Ou ele me paga até segunda-feira, ou eu mando dar cabo da vida dele”. Esse foi o recado. Pau de Cego era um homem sem paciência. Cosquento. Carrasquento. Parecia alguém atacado por sarna gaita. O devedor mandou esta resposta: “Diga a ele que eu devo e não nego. Pagar, só quando Deus me der bom tempo”.
Celso devia ter gastado o dinheiro das duas rezes, compradas a Pau de Cego, com o tratamento do tio. Coitadinho, quase morreu. Salvou-se, porém, graças a Deus. Pau de Cego, contudo, não tinha nada a ver com o tio de Celso, nem com a doença lá dele. Queria o seu dinheiro. Mas, a conversa que cresceu na cidade dava conta de que Celso estava arreado dos quatro pneus por zinha da capital, uma morena de arrocho. Pau de Cego azedo. Mandou outro recado, ainda mais ameaçador. Pois não foi que Celso procurou o delegado de polícia, para denunciar João Vicente, o Pau de Cego? Crime de ameaça. Art. 147 do Código Penal.
O delegado, um major reformado, mandou chamar Pau de Cego. Marcou para as nove horas da quinta-feira. Frente a frente, lá estavam Celso, o devedor, e Pau de Cego, o credor ameaçador. O delegado indagou: “Então, ‘seu’ João Vicente, o senhor está ameaçando de morte o senhor Celso?”. Ao que ele respondeu, enfezado: “Tou ameaçando, não senhor. Não ameaço ninguém. Este traste me deve dinheiro. Eu disse e repito, aqui diante do senhor, ‘seu’ delegado, que se ele não pagar o que deve, eu vou mandar matá-lo. E vou mesmo. Isso não é ameaça. É fato”. O delegado fez uma longa peroração. Não teve acordo. Ou Celso pagava ou seria morto.
O delegado, então, chamou Celso na sala privativa. E disse-lhe: “Eu aconselho ao senhor a pagar o mais depressa possível, pois se ele disse aqui, na minha frente, que vai mandar lhe matar, ele vai mesmo. Mostrou que está determinado. No lugar dele, eu não sei se faria diferente. Se ele mandar lhe matar, será processado, claro. A Justiça haverá de puni-lo, mas o senhor estará debaixo do chão. Pague e preserve a sua vida. E este conselho, ‘seu’ Celso, é o que eu posso fazer de melhor pelo senhor, nestas circunstâncias”.
Celso de Pedro Carrapeta arregalou os olhos. Não esperava ouvir o que acabara de ouvir da boca do delegado. Coçou a cabeça. Precisava arranjar o dinheiro emprestado. Pau de Cego era pau de cego mesmo. Era madeira de dar em doido.


 


(*) DIÁCONO. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL, DA ASLJ E DO IHGSE.


Publicado no Jornal da Cidade, edição de 03 de julho de 2016. Publicação neste site autorizada pelo autor.


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