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Aracaju (SE), 06 de fevereiro de 2026
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 28/11/2020 às 22:12
Pub.: 30 de novembro de 2020

Adeus, Negão! :: Por José Lima Santana

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana*

Colégio Salesiano. 1979. Eu ensinava Educação Moral e Cívica e Religião. Numa aula sobre política, eu citei o nome de um político sergipano e disse que esperava votar nele, um dia, para governar o nosso estado. Na sala de aula, uma filha desse político, Cristina, que eu não sabia ser filha dele. Fiquei sabendo, depois, por outra aluna. Após três anos, ali estava eu no palanque, em Dores, discursando e pedindo votos para ele: João Alves Filho. 

Com ele, eu trabalhei nos seus três mandatos como governador. No primeiro, fui diretor regional de Educação, na DRE-5, também em Dores. No segundo, diretor financeiro da FUNDESE. No terceiro, presidente do IPES e Secretário de Estado da Saúde. Dele, eu jamais recebi um pedido indecente ou que não pudesse ser atendido, legal ou moralmente. Jamais. 

João Alves fez uma revolução na vida política de Sergipe. E na administração pública. Para mim, o seu maior feito político não foram as suas três vitórias para governador, mas, sim, ter feito o sucessor em 1986, quando comandou a eleição de Valadares, único governador eleito pelo PFL, naquela eleição. Mas, também, a sua atuação na eleição de Albano Franco, especialmente no segundo turno, em 1994. E ninguém venha para cá me dizer que não. De 1982 a 2010, eu participei ativamente de todas as eleições para governador, exceto a de 2002, quando estava no Tribunal Regional Eleitoral, como juiz da classe jurista. Portanto, sei o que estou dizendo. 

Falar nas gestões de João Alves é chover no molhado. Todo mundo sabe o que ele realizou. Alguns o tinham como visionário, outros como megalomaníaco. Entre acertos e desacertos, ele deixa um saldo positivo. Suas realizações estão aí. Elas falam por ele. 

O “Negão”. Muitos assim o chamavam, carinhosamente. Porém, havia quem assim o chamava de forma pejorativa. Eu bem sei. Ouvi isso de bocas adversárias. Não importa. Era mesmo “Negão”. Aliás, como seu auxiliar, eu me dava à ousadia, em particular, de assim mesmo o chamar, cara a cara. Um dia, no Palácio dos Despachos, ele me chamou de “Negão”, ao que eu retruquei, dizendo que “Negão” era ele. Eu era “Neguinho”. Ele lascou aquela gargalhada espalhafatosa que o caracterizava. Gargalhada boa da gota! 

Um homem incansável. Quantas vezes, tarde da noite, ou de manhã cedo, quase madrugada, ele me ligava, como o fazia com todos os seus auxiliares, para dizer alguma coisa, cobrar alguma providência! E, normalmente, ele começava assim: “Querido amigo, eu lhe acordei?”. Não raro, de última hora, mandava a chefe de gabinete convocar alguns secretários para, às pressas, irem encontrá-lo no aeroporto, dali rumando a Brasília, num jatinho, despachando na ida e na volta. Dois, três, quatro secretários com suas pastas cheias de papeis, de projetos etc. Com ele, não tinha hora. Noutras ocasiões, almoçava com vários auxiliares na própria mesa de trabalho. Com João era assim. 

Só não trabalhei com ele na Prefeitura de Aracaju, na sua última participação no Poder Executivo. Trabalhei ativamente na campanha, mas não pude lhe auxiliar. Não interessa aqui os motivos. O Vice-prefeito, José Carlos Machado, insistiu comigo e com ele para que eu o ajudasse. Não deu. Doente, mas, sem o saber, Dr. João não se deu bem, na PMA. Uma pena! 

Acometido pelo mal de Alzheimer, eu o visitei, na companhia do arcebispo de Aracaju, Dom João, no ano passado. Prostrado na cama, sem falar, não sei se estava consciente, naquele momento, mas, quando eu disse que Sergipe devia muito a ele e que eu tive a honra de trabalhar nos seus governos, lágrimas escorreram de seus olhos. Uma cena triste, que eu disse a mim mesmo que jamais se repetiria, pois eu não teria coragem de revê-lo. Não naquelas condições. Realmente, não mais o vi.

Alguns políticos sergipanos o desprezaram, o desmereceram, até o traíram, depois de conviverem com ele, de se beneficiarem dele. Que ramo desgraçado, às vezes, é a política! Para minha surpresa, alguns desses, após a sua morte, foram às redes sociais para dizer “isto” ou “aquilo”, em seu favor. É sempre assim. 

Bem. Chegou o fim. De forma brutal. Após amargar uma enfermidade desoladora, para ele e sua família, um ataque cardíaco e a covid-19. Por conta dessa última, nós, os seus amigos, auxiliares, admiradores e o povo em geral não pudemos prestar-lhe as devidas homenagens, diante do seu corpo, posto num esquife. Que final triste! As cortinas do tempo não lhe foram favoráveis. Fecharam-se abruptamente. Todavia, o seu legado ressoará pelos tempos afora. O reconhecimento, o carinho, a saudade de quem com ele conviveu de perto serão imorredouros. 

João era um homem culto. Era, com méritos, membro da Academia Sergipana de Letras. E não o era por ser político, por ter sido governador, por puxa-saquismo, mas, pelos livros que escreveu, todos voltados para questões do nosso estado. Era devotado à leitura. Amante dos filmes e da música. Um dia, viajando para o interior, ele colocou um CD para tocar e me perguntou: “Sabe quem está cantando, Neguinho?”. De pronto, respondi: “Doris Day”. Ele gargalhou e disse: “Você tem bom gosto”. E eu: “Nós temos”. Rimos muito.

Noutra vez, na presidência do IPES, João me ligou de Lisboa, para tomar uma providência, que lhe fora indicada por um certo secretário, mas que era uma indicação equivocada, como o próprio secretário me disse,  e como disse que diria ao governador, no seu retorno da Europa. Eu dei a informação a João. Mas, ainda crente da indicação do secretário, ele me deu uma bronca. Então, eu desliguei o telefone. Ao chegar, o secretário lhe disse que a informação que lhe dera era equivocada. Encontrando-me, disse o governador: “Neguinho, você é tucudo. Desligou o telefone na minha cara”. Eu respondi: “Aprendi a ser tucudo com o senhor, que é o Negão mais tucudo de Sergipe”. Ele me olhou duramente, franziu o cenho e, a seguir, disparou uma gargalhada, dando-me uma leve tapa na cabeça. Enfim, a gente se entendia. 

Quem não gostava de João, mesmo quem dele se aproveitou, nalgum momento, mas o criticava, não deverá gostar deste artigo, caso o leia. Não importa. Não escrevo para agradar ou desagradar ninguém. Escrevo o que sinto e sobre o que sinto. 

João Alves Filho foi o maior político e o maior governante de Sergipe, nas últimas quatro décadas, entre erros e acertos. Muitos, uns e outros, ele os teve. Que Deus o receba na sua glória, aliviando-o dos fardos que carregou até o fim.

Eu não o esquecerei, Negão! Jamais o poderei esquecer. E sei que, nalguma hora em que me lembrar de você, dos momentos que vivenciamos juntos, poderei derramar alguma lágrima. Será lágrima de saudade. 

Adeus, Negão! Adeus!

*Padre, advogado, professor da UFS, Membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE


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