22 de Abril de 2017
POR: DOM João José Costa
Fonte: DOM João José Costa
Em: 21/04/2017 às 20h20

Bioma Amazônia: vidas que não devem se perder :: Por DOM João José Costa


Por DOM João José Costa*

DOM JOÃO JOSÉ COSTA - ARCEBISPO METROPOLITANO DE ARACAJU (Foto: arquivo pessoal)

DOM JOÃO JOSÉ COSTA - ARCEBISPO METROPOLITANO DE ARACAJU (Foto: arquivo pessoal)

Após a pausa da semana passada, para falarmos sobre a Páscoa, eis que retomamos o tema da Campanha da Fraternidade deste ano: Biomas Brasileiros e Defesa da Vida. Neste artigo, abordamos o Bioma Amazônia, que é, geograficamente, formado pelos estados da região Norte: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Roraima, Rondônia e Tocantins, além do Mato Grosso e do Maranhão. Porém, como todos sabem, a Amazônia ultrapassa as fronteiras do Brasil.
    
Deus, ao criar o mundo no qual vivemos, segundo a nossa fé, deu-nos tudo de que poderíamos precisar e que deveríamos usar com a necessária moderação, a fim de que fosse mantido o equilíbrio entre todas as cadeias que formam ou contribuem para os ciclos da vida na Terra, tomando-se por base, como nos diz a ciência, os três reinos nela encontrados: animal, vegetal e mineral. Dentre os animais, apenas um recebeu o sopro do Espírito de Deus, o ser humano, que Deus o formou à sua imagem e semelhança (Gn 1,26-27). Eis por que se tornou o único ser racional. Todavia, a racionalidade humana nem sempre tem sido exercitada a contento. O ser humano que deveria “cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15) tornou-se, desde cedo, o devastador da Natureza. E a Natureza não é infinita. No Céu e na Terra tudo deve estar em harmonia. Tomemos como exemplo o que nos disse Jesus Cristo, ao ensinar a oração do Pai Nosso “seja feita a vossa vontade assim na Terra como no Céu”. A vontade de Deus é que reine a harmonia entre todas as suas criações.
    
Não de deve desconhecer o fato insofismável de que o passar dos tempos traria os mais diversos avanços e as mais diversas necessidades, levando o ser humano a fazer uso dos recursos naturais. Mas, também não se deve negar que a ganância de alguns propiciou os desmatamentos demasiados, a caça predatória, a exploração do homem pelo homem. Inclusive na Amazônia.
    
E por falar na exploração do homem pelo homem, no bioma Amazônia há representantes bem distintos dos chamados povos das florestas: ali estão índios aculturados e não aculturados, extrativistas vegetais (seringueiros, catadores de castanha ou de guaraná, além de outros produtos), pescadores e tantos outros tipos regionais. Alguns desses grupos têm sido sacrificados, notadamente os índios. Mas, não somente estes.
    
Faz-se necessário aprofundar a preservação do bioma, no seu todo, levando-se em conta, sobretudo, a sobrevivência digna da população que ali se acha estabelecida. A vida humana, feita à imagem e semelhança de Deus, merece toda atenção e respeito.
    
Bem sabemos que a cobiça sobre a Amazônia vem de longe. Desde o início do século XX com o ciclo da borracha, os olhos estrangeiros detiveram-se sobre aquela primeira riqueza dali emanada. Com o tempo, milhões de mudas de seringueiras foram contrabandeadas para a Ásia, e o Brasil perdeu a primazia da produção da borracha. Atualmente, a cobiça internacional tem se voltado para riquezas minerais que são encontradas em profusão, e, especialmente, para o maior manancial de água doce do mundo. Todo cuidado é pouco.
Propomos que, como cristãos, devemos volver o coração e a mente para esta lição bíblica: “Aprende onde se acha a prudência, a força e a inteligência, a fim de que saibas, ao mesmo tempo, onde se encontram a vida longa e a felicidade, o fulgor dos olhos e a paz” (Baruc 3,14).
    
A Palavra de Deus tem tanto a nos ensinar. Nós temos tanto a aprender, porém, infelizmente, parece que estamos nos distanciando cada vez mais dos ensinamentos bíblicos em face do materialismo, do consumismo, do comodismo, do egoísmo, enfim, da sociedade líquida em que nos tornamos, para usar a expressão cunhada por Zygmunt Bauman. Para ele, a sociedade líquida não pensa a longo prazo, nem consegue demonstrar seus anseios em um projeto de longa duração e de trabalho intenso para a humanidade. A cristandade católica não deve caminhar de braços dados com a sociedade líquida. Urge que (re) tomemos o rumo da Palavra de Deus.
    
Atentemos para esta outra lição das Sagradas Escrituras: “Não procureis a morte por uma vida desregrada, não sejais o próprio artífice de vossa perda. Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma. Ele criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo devem cooperar para a salvação. Nelas nenhum princípio é funesto, e a morte não é a rainha da terra, porque a justiça é imortal” (Sb 1,12-15).
    
Não cuidarmos do bioma Amazônia é preparar a sua morte lenta e gradual. A fauna, a flora e o elemento humano hão de sofrer, além do que já têm sofrido, desregramentos irreversíveis. Como diz o texto acima do livro da Sabedoria, “Deus criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo devem cooperar para a salvação”. As criaturas do mundo... Nós, todos nós, somos estas criaturas do mundo. Cabe-nos o dever de cooperar. Assim como as autoridades públicas e os mais diversos segmentos sociais, a Igreja Católica tem a sua parcela de responsabilidade, como anunciadora da Boa Nova de Jesus Cristo. Isto fez levar a CNBB a chamar a atenção de todos para os graves riscos que correm os biomas brasileiros.
    
Que Deus nos ajude a cuidar a tempo do que nós ainda temos.


*DOM JOÃO JOSÉ COSTA - ARCEBISPO METROPOLITANO DE ARACAJU
Postagem no Clicksergipe autorizada pelo autor.

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