Aracaju (SE), 03 de dezembro de 2020
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 31/10/2020 às 09h45
Pub.: 03 de novembro de 2020

A segunda série ginasial :: Por José Lima Santana


José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana*


Este artigo sequencia aquele publicado no dia 17 pretérito (“Iniciando o curso ginasial”). Aos treze anos, na segunda série do Ginásio, o mundo foi-se abrindo a passos largos. Muitas coisas aconteceriam. 


Numa reunião de pais, eu tive que acompanhar o meu pai. Foi numa quarta-feira à noite. A pauta da reunião era a majoração das mensalidades. O padre Araújo tinha morado no Canadá. A sua visão era voltada para o atendimento das classes menos favorecidas. Ele era muito ligado a Dom Távora. Tanto que, com a morte do Arcebispo, em 1970, ele teve dificuldades de conviver com o novo Arcebispo e acabaria deixando o sacerdócio. Na reunião, o padre diretor fez uma proposta que só não recebeu a adesão de um pai de aluno. Este, lembro-me muito bem, disse que os pais que não pudessem pagar para os filhos estudarem, que os tirassem do Ginásio. O diretor tinha proposto que os pais mais abastados pagassem NCr$ 10,00. Os remediados, NCr$ 5,00. E os de menores condições, NCr$ 3,00, que fora o valor da mensalidade do ano anterior, para todos. Meu pai, que era marchante, foi enquadrado entre os remediados. A proposta do diretor foi, então, acolhida.


De volta para casa com o meu pai, eu disse que, quando crescesse, queria ser diretor do Ginásio para ajudar os alunos pobres. Papai me olhou de soslaio e riu. Realmente, dez anos depois, em junho de 1978, o professor Nicodemos Correia Falcão, nomeou-me diretor do já Colégio Cenecista Regional Francisco Porto. E ali eu permaneci até outubro de 1997, quando me tornei professor efetivo da Universidade Federal de Sergipe. Nos meus dezenove anos e quatro meses de direção, todo aluno pobre que quis estudar teve a oportunidade garantida. O jeito eu consegui dar sem onerar o Colégio.


A Secretaria de Estado da Educação precisaria do espaço do Calasans, no turno noturno. Para onde iríamos? O padre Araújo foi bater à porta da Prefeitura. O prefeito Juquinha de Nonô (Antônio Cardoso de Oliveira) prontificou-se em buscar ajuda junto ao governador Lourival Baptista. Então, a Prefeitura adquiriu um terreno para a construção do prédio próprio do Ginásio. O governador topou a parada.


Em 30 de outubro de 1968 foi lançada a pedra fundamental do prédio do Ginásio. Além do terreno adquirido, o prefeito Juquinha entregou um cheque de NCr$ 15.000,00 ao governador. Na primeira parte do prédio escolar, seriam gastos NCr$ 60.000,00. O Estado entraria com NCr$ 45.000,00. Uma festa, assistida por autoridades municipais e estaduais com a participação de muitas pessoas da comunidade local. Naquela época, a presença do governador no interior era, por si só, uma grande festa. Além do Ginásio, seria reformado o estádio Ariston Azevedo, do Dorense Futebol Clube. E outras obras seriam lançadas. Àquela solenidade também esteve presente o Arcebispo, Dom José Vicente Távora, o Bispo dos Pobres.


No dia 21 de junho daquele ano, 1968, a minha turma foi toda ela suspensa por três dias, por ato do vice-diretor, na ausência do diretor. A turma estava revoltada com o resultado da prova de Matemática, cuja disciplina era “ensinada” pelo vice-diretor, que era, também, funcionário de um Banco privado que abriu agência em Dores. Mas, ele não sabia nada de Matemática, ao menos do conteúdo da segunda série. Livro utilizado? Ary Quintela. Um aluno repetente, Zezinho de Valda, à tarde dava umas “aulas” ao professor, para que este nos “ensinasse”. A turma acabou descobrindo isso. Dias antes da prova, ele chamou-me ao quadro negro para resolver uma raiz cúbica. Eu não sabia nem a quadrada, imagine a cúbica. Todavia, não perdi a pose. Enchi o quadro de números, vagarosamente, como se realmente estivesse resolvendo a questão, Nada. Estava apenas aguardando o toque do sino de Valmir, no fim da aula. Tocou. Afastei-me um pouco e com pose de quem sabia tudo, disse: “Professor, terminei”. Ele nem olhou. Respondeu: “Muito bem. Zé. Você tem oito e não precisa fazer prova”. Os colegas foram à loucura. Eu não tinha nada a ver com o imbróglio. Fiquei mesmo com a nota 8,0 e não fiz a prova. Com a revolta dos alunos, o professor botou para quebrar na prova. Fernando Lima tirou nota 7,0. Alberto Jorge, 5,0. Os demais, se não me falha a memória, se ferraram. Dezessete tiraram nota zero. Entrega das provas no dia 21. Revolta geral. Suspensão geral. Tivemos um São João antecipado. A Matemática era mesmo o meu tormento. No Primário, contudo, não tinha sido assim.


O professor Cerivaldo Pereira, funcionário do BANESE, novo professor de Matemática e de Educação Física, começou a abrir a cabeça da rapaziada para certas situações da vida política nacional. Ele era do Partidão, na clandestinidade. Não nos aliciava, mas nos levava a pensar coisas. Um grupo de estudantes logo aderiu à moda de ouvir na frequência de ondas curtas as Rádios de Moscou, Berlim Oriental e Havana, nas transmissões em português, a partir das 23:00 horas. Ouvíamos também a BBC de Londres. Não ouvíamos a Voz da América, porque apoiava a ditadura militar, que aprendemos a contestar. 


Um registro que não pode ficar de fora deste artigo: nas duas primeiras séries do curso ginasial a disciplina que mais me encantou foi o Francês. O livro didático era “Cours de Français” de Augusto R. Rainha e José A. Gonçalves. Os professores foram o padre Araújo, que, como foi dito, morou no Canadá, na parte francesa, e a Irmã Branca, da Congregação de Sion, que tinha morado na Bélgica. Deixei-me tocar pela língua de Victor Hugo. Tanto que, quando eu fui estudar na Aliança Francesa, em 1977, tendo como professor o hoje diplomata aposentado, Sílvio Menezes Garcia, eu e Carolina fomos passados do primeiro para o quarto ano. Não sei se eu merecia tanto. Carolina, sim. Mas, o professor era formidável. 


Na segunda série, eu descobri a poesia de Manuel Bandeira, que se tornaria, para sempre, o meu poeta preferido. No livro de português, “Língua Pátria”, de Maximiano Augusto Gonçalves, que tinha na capa a fachada da sede da Academia Brasileira de Letras, havia dois poemas do pernambucano, denominado de “poeta federal” por Carlos Drummond de Andrade: “Renúncia” e “O trem de ferro”. Encantei-me, especialmente com o segundo, pelo seu ritmo “fumegante”. 


Fim de ano. A Matemática não me deu trégua, apesar daquele oito (8,0), e tive que, mais uma vez, ir para a prova final. Mas, no geral, passei com folga, entre os primeiros colocados. Que viesse a terceira série.


*Padre, advogado, professor da UFS, Membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE

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