Aracaju (SE), 29 de outubro de 2020
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 19/09/2020 às 10h48
Pub.: 21 de setembro de 2020

Canetas :: Por José Lima Santana


José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana*


Quando eu entrei na escola, aos cinco anos, tinha um sonho: escrever com um lápis-tinta, uma caneta esferográfica, como faziam os alunos mais adiantados. Era uma escola multisseriada. Mas, aos iniciantes do ABC só era facultado escrever com lápis de rascunho, ou seja, lápis grafite. Lápis nº 2 da Faber Castell, apontado com uma lâmina de barbear da marca Gilette. Depois, apareceram aquelas “maquinhas” de apontar. Eu achava tão bonito fazer a ponta do lápis naquele treco, que gastava o lápis em pouco tempo, fazendo e refazendo a ponta. Para apagar os erros, uma borracha em duas cores, vermelha e azul, que chamávamos raspadeira. Marca? Prima Mercur. E ainda tinha os indefectíveis lápis de cor, numa caixa com doze unidades. 


O tempo passou, eu fui desasnando, como se dizia, e, enfim, pude empunhar a minha primeira caneta. Marca? Sempre ela: Bic. Pouco importa quem a usou ou a usa. Caneta azul. Azul caneta. Valha-me Deus! Fizeram uma musiquinha horrorosa, nojenta. “Fio” da gota! Pois bem. 


Passou ainda mais tempo. Em dezembro de 1966, ali estava eu fazendo as provas da admissão ao ginásio. Ainda guardo o meu livro de Admissão. Passei em segundo lugar. Naquele tempo, era uma festa ouvir o próprio nome no autofalante da Matriz. De presente, ganhei do meu tio José Ariston, irmão da minha mãe, uma caneta Parker 51. Caneta-tinteiro. Folheada a ouro, na tampa e na cinta, que ele ganhou de presente na multinacional na qual trabalhou como gerente, em São Paulo. Que caneta! Comprei um tinteiro na loja “A Vencedora” de “seu” Humberto Azevedo Andrade. A Parker não derramava tinta. O bico deslizava no papel com a leveza de uma garça cortando os ares. Eu a levava às aulas noturnas no Ginásio Tertuliano Pereira de Azevedo, só para mostrar aos colegas. Orgulho de um suburbano besta.


Ao iniciar o curso técnico em contabilidade, no Colégio Tiradentes, em 1971, eu perdi a minha Parker. Não sei se deixei cair nalgum lugar, ou se me afanaram a caneta. Fiquei transtornado. Jamais tive coragem de dizer ao meu tio que a perdi. Eu tinha vontade de possuir outra caneta daquela, mas nunca mais a possui. Outras viriam.


Certa feita, eu ganhei de um amigo uma Montblanc, trazida de Nova Iorque. O amigo tinha posses. Quando gastei a carga e fui comprar outra, desisti da caneta. O preço da carga era muito maior do que o preço de várias Bics. “Tá louco”! Guardei-a. Aliás, nem sei onde está, de tão bem guardada. 


Tempo houve em que uma Montblanc depositada no bolso esquerdo de uma camisa masculina era sinal de prestígio. Parecia que o mundo se dividia entre os muitos que não a possuíam e os poucos que a ostentavam. Acho até que uma Montblanc servia como chamariz para certas mulheres. E devia ser afrodisíaca. Aliás, há poucos dias, na minha Paróquia, vi um amigo que foi à Missa com duas delas no bolso esquerdo da camisa. Puxa! Lá estavam as duas estrelas faiscando. Poder é poder. Santo Deus! 


Com o correr do tempo, ganhei outras canetas, mas não Parker nem Montblanc. Todavia, como a maioria das pessoas, fixei-me na velha e boa Bic. Pouco importa quem a usa. No serviço público, deparei-me com uma esferográfica danada de ruim, que não escrevia nem um milímetro, quanto mais os quilômetros que a marca apregoava. Licitação pública do tipo menor preço. Adquiria-se uma porcaria. Como eu odiava aquela caneta infeliz, que, simplesmente, não escrevia! 


Os anos continuaram a escorrer no sorvedouro do tempo. Outras canetas viriam. Muitas como brindes de lojas etc. Do tipo “usou”, “jogou”. Vai para o lixo. E haja lixo emporcalhando o mundo! Ganhei uma caneta muito bonita, embora não tão cara quanto uma Montblanc, na década de 1990. Encontrei-a sobre a minha mesa de trabalho, embrulhada. Perguntei à secretária quem a deixou ali. Respondeu-me que foi um colega de trabalho. Agradeci ao colega, que nada disse. Porém, tempos depois fiquei sabendo que o colega tinha sido mero portador. Como já estava usando, não quis devolver. Aposentei-a. Um empresário tinha enviado a caneta pelas mãos do meu colega, sabendo que eu não recebia “mimos” de quem tinha interesse nas repartições que eu dirigia. Por conta disso, em 1997, escrevi o poema “Bobagens”, publicado no meu livro “Redemoinhos” (São Paulo: Scortecci Editora, 2015, p. 54): “Um dia, eu ganhei / Uma caneta barata, / Mas muito bonita. / Com ela, o doador esperava / Que eu assinasse / Documentos importantes, / Como portarias / e ordens de serviço. / Felizmente, frustrei suas esperanças, / E com ela eu apenas escrevi bobagens, / Em forma de poemas”. 


Todavia, uma caneta simples, que eu recebi em 26 de março de 1981, guardo-a com grande carinho. Simples, muito simples. Mas, muito valiosa para mim. Nela está gravado: “Oferta da OAB”. Eu a usei apenas uma vez. Ganhei ao receber a minha carteira de advogado, por ter sido aprovado em 1º lugar no Exame da Ordem, realizado em fevereiro daquele ano, tendo sido diplomado pela UFS, em 26 de dezembro de 1980. 


A única vez que eu usei a caneta ofertada pela OAB (SE) foi quando assinei a minha primeira petição, uma ação de execução cambial, em abril de 1981. 


Gosto de canetas. Perco-as, às vezes. Por isso, prefiro a básica. A que não falha. Bic. Pouco importa quem também a esteja usando.


*Padre, advogado, professor da UFS, Membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE

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