07 de janeiro de 2019
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 05/01/2019 às 09h36

REVELAÇÃO NA VÉSPERA DO ANO NOVO :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo Click Sergipe)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Click Sergipe)

Totinha de João de Maria Goré era o tipo de sujeito descrente de tudo. Ateu, ateu ele não era. Afinal, de vez em quando ele dizia um “se Deus quiser”, ou um “Deus lhe pague”. Quando advertido, ele dizia ser por força do hábito, do costume, da cultura cristã impregnada em sua vida pela própria família e pelo povinho dali.


Embora descrente dos mistérios do céu, como costumava dizer Dona Celina de Maria Goré, tia de Totinha, esta, sim, crente até demais, igrejeira de dar comichão no sacristão Zé Perneta, sempre que ele a via aproximar-se da Igreja Matriz, pois ela o fazia até nas horas mais inconvenientes, como nos momentos em que o sacristão, dada a hora, tinha a obrigação de fechar a casa de Deus, Totinha era por demais solícito nas precisões do padre Malaquias. E dona Celina tinha uns rompantes para rezar diante da imagem de Santa Rita de Cássia, a santa das causas impossíveis, na religiosidade popular católica. 


Aproximava-se o fim do ano. A caminho estava 1999. Ano em que dona Celina esperava que o sobrinho lhe desse um sobrinho-neto. Casado há quatro anos, o rapaz era citado nas prosas dos amigos como galo de ovo goro. Não tinha tutano para fazer um filho. E ninguém dissesse que o problema era lá da mulher dele, Ceicinha, que filho ela já tinha, do primeiro casamento dela com Marcelo de Pedro Costa, que, coitado, morreu chifrado por um boi guzerá, que marchante ele era. O pobre homem nem viu o filho nascer. Ao morrer o marido, Ceicinha, que tinha apenas 18 anos, estava grávida de três meses. Marcelo Costa morreu no alto dos seus vinte anos. A morte causou uma comoção pouco vista igual na cidade. Ele era muito querido. Pessoa do bem, dado com todo mundo, direito como o pai, os tios e o avô, Severino Costa, o primeiro comerciante de tecidos da jovem cidade, na década de 1950. 


Então, se no decorrer de quatro longos anos, longos no dizer e sentir de dona Celina, tia e madrinha de batismo de Totinha, este não fora capaz de emprenhar a mulher, que mãe já era, o problema estava com ele. Nenhum homem da família Goré tinha, até aqueles dias, faltado com o seu dever de macho, de pai d’égua testado e aprovado. As rezas para Santa Rita não tinham adiantado de nada. Ainda não. Para dona Celina, a santa poderia estar dando voltas até chegar no ponto de favorecer Totinha. 


O casamento de Totinha com Ceicinha, viúva de Marcelo Costa, ocorreu cinco anos e meio depois da viuvez dela. Totinha era quase um bronco em termos escolares, pouco tendo estudado, mas, já bem postado na vida, como comerciante de cereais, na feira da cidade e em feiras da região. Seguiu os passos do pai. Desde muito cedo, acompanhou o pai nas feiras. Aprendeu com facilidade a vender e comprar feijão, fava e milho em caroço. Aos quinze anos, já tinha o começo de um pé de meia. Dali em diante, foi só prosperar. Era um sujeito apessoado. Não fazia feio diante de moça nenhuma. O casamento com Ceicinha foi bem recebido pelas duas famílias. E também pela família do finado Marcelo, que confiava nos cuidados de Totinha para com o enteado, Lucas Matheus. 


As agonias da tia e madrinha de Totinha em relação à falta de um filho por ele gerado, não estava nas preocupações dele e da mulher. Mãe ainda muito jovem, e sem ter tido tempo para bem viver a vida de casada com o primeiro marido, ela aproveitava a vida a dois atual para viver um namoro prolongado. Era feliz com o marido e o filho do casamento anterior. Se Marcelo foi um bom companheiro no tempo de menos de um ano que durou a vida em conjunto dos dois, Totinha excedia em zelo e demonstração de felicidade ao lado dela. E Lucas Matheus encontrou em Totinha um paizão. Em suma, família feliz estava ali. 


Dona Celina fez e refez promessas. Pediu e rezou para vários santos. Agarrou-se com o Senhor dos Aflitos. Apelou para o “santo” do Juazeiro, Padim Ciço Romão Batista. Nada. Diante de tudo aquilo, não lhe restava dúvida: o caso de Totinha só poderia ser resolvido com o adjutório de um bom médico, daqueles que faziam mulher com o ovário destrambelhado parir dois ou três filhos de uma vez. Na Bahia, dizia-se, havia um médico que fazia milagres. Era para lá que Totinha deveria tomar rumo. O padre Malaquias seria consultado, para saber se o tratamento médico era conforme a lei de Deus. 


Consulado, o padre viu-se num beco quase sem saída. De um lado, ele poderia fazer crer que os santos não tinham operado o milagre que Dona Celina esperava. Do outro lado, não poderia negar os benefícios da medicina moderna, na área da genética, até onde a bioética permitia. O padre titubeou. Pediu um tempo para consultar o bispo e para, ele mesmo, orar pelo bem do casal. Não iria consultar o bispo coisa nenhuma. Era só para ganhar tempo, para ver se algo aconteceria naturalmente. E foi então que o pároco, já andado nos anos de sacerdócio, intuiu de ter uma conversa com Totinha e Ceicinha. Ele, descrente. Ela, devota do Sagrado Coração de Jesus. Umas semanas depois, dinate dos muitos afazeres, o padre, que fez lá suas orações, foi ter com o casal. 


A conversa a três deu-se na casa do casal, num sábado à noite, depois da missa. Ofereceu-se o padre para jantar com eles. Não era a primeira, nem a segunda vez, que o padre Malaquias se alimentava na casa de Totinha e Ceicinha. A bem da verdade, o padre era freguês da boa comida de Ceicinha, que, deveras, era uma senhora cozinheira. Naquela noite, foram servidos um assado na brasa de carne de sol, um lombo velho de frigideira, recheado, que era uma delícia, uma fritada de maturi, que era um verdadeiro manjar dos deuses, e que o padre tanto adorava. Arroz temperado, farofa de ovos e banana da terra. Suco de jenipapo para o padre, que ele bebia um ou dois litros. 


Depois da comilança, Lucas Matheus foi dispensado para brincar na rua pacata com os vizinhos de sua idade, Valtinho de Cecílio de Pai João, Dudu de Catarina e Pituca de dona Célia de Jaime Porto. O casal, então, pôs a ouvir o padre que, sem rodeios, entrou na conversa franca. Após ouvir tudo o que o padre lhes disse, os dois entreolharam-se, sorriram, até que Totinha disse: “Seu padre, tia Celina não anda bem da bola. Como ela é solteirona, não arranjou um homem para casar, ou não quis ter marido, ela nos aperreia, querendo um sobrinho-neto, embora já tenha muitos. É que ela me tem como filho, minha madrinha que é. Eu compreendo os aperreios dela. Mas, aqui pra nós, e o senhor vai guardar segredo, como se a gente estivesse em confissão, eu e Ceicinha vamos dar de uma vez dois irmãozinhos a Lucas Matheus. Ceicinha está grávida de gêmeos. A gente soube esta semana. E só vai dizer aos parentes na noite da véspera do Ano Novo. Vai ser uma festa, com certeza. Lucas Matheus tem cobrado um irmão. Vai pular de alegria com dois”. 


Ah, o padre Malaquias saiu esfregando as mãos de contentamento e agradecendo a Deus! E dona Celina haveria de pagar todas as promessas feitas. Haveria, sim. Como dito, na noite de 31 de dezembro, quase toda a parentela dos dois lados reunida na casa do casal, que a todos tinha convidado para celebrar a passagem do ano, eis que a revelação foi feita: Ceicinha daria à luz a gêmeos. Alegria geral. 


No dia seguinte, dona Celina bateu-se para a casa do padre. Foi agradecer-lhe. A reza do padre era mais forte do que a dela. Ou os santos teriam demorado de propósito para lhe atender? Ela ficou na dúvida. Porém, estava feliz. Era o que importava.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE


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