12 de maio de 2015
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

Tarde de “trevoada” :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


Foto: ClickSergipe

Foto: ClickSergipe

Aos poucos, o vento lá em cima fez um ajuntamento de nuvens escuras. Elas vinham do Leste, tangidas do Oceano. Agruparam-se como se estivessem em assembleia. Talvez acertassem a hora de cair, de fazer chover sobre a terra ressequida, tão carente de água que escorresse sobre sua face e penetrasse em suas entranhas. Enfim, que lhe fecundasse. Primeiro, caíram uns pingos de água. Um aviso. Um cheiro forte levantou do solo em agonia. Era a primeira trovoada do fim do ano. Dona Lalá de “seu” Virgílio do finado Secundino gritou no quintal: “Mariinha! Ô Mariirnha! Venha cá me ajudar a catar essas roupas, que vai cair trevoada, minha filha!”. A “trevoada”, como ela dizia, estava chegando. O mundo escureceu de vez. As nuvens ainda confabulavam. Parecia que umas diziam: “É agora!”, ao passo que outras respondiam: “Tenham calma!”. Cá embaixo, Dona Lalá, avexada, e todos mais aguardavam a pancada d’água. As notícias corriam pelo rádio, que o aguaceiro já estava caindo em várias cidades. Algumas, na Cotinguiba, estavam alagadas. Chuvarada de tinir.
Uns riscos no céu. Uns estrondos de lascar. Trovões e relâmpagos traziam a “trevoada”. Ou a “trevoada” os traziam? Minha avó Lourdes correu a cobrir os espelhos. Desligou o rádio. Era o medo de que um raio caísse. Com pouco tempo, as torneiras do céu se abriram com vontade. Era água grossa. “Parece até um dilúvio!”, gritou minha avó, assustada. Nas valetas da rua a água descia num torvelinho só, tomando a rua de ponta a ponta. Aliás, não eram valetas, era um ribeirinho recém-formado, descendo em direção ao açude. Nas telhas, a água tilintava. As biqueiras faziam-se pequenas cachoeiras. O fogo do céu cortava os ares, fazia piruetas serpenteadas. E os anjos com suas trombetas e tambores faziam festa no céu. Era o que dizia Dindinha Carminha. Festa no céu! E eu me perguntava se os anjos não tinham outro modo de fazer suas festas sem assustar as pessoas. Era cada estrondo, que fazia estremecer a cristaleira de minha avó. Eu não sabia para que tanta brabeza dos anjos. Seria raiva que eles tinham das pessoas? Porém, no catecismo, na escola, a professora ensinava que os anjos eram espíritos puros de Deus. E por que Deus deixava os seus anjos fazerem tanta folia? Eu não entendia. Mas, eu não tinha medo dos trovões. Ao contrário, gostava dos estrondos. Só não entendia porque os anjos os produziam assim com tanta raiva. E os relâmpagos? Eram mais do que bonitos. Eu os espreitava por uma fresta da janela. Vovó não permitia portas e janelas abertas, nas “trevoadas”. E se um raio buliçoso tivesse a veneta de entrar porta ou janela adentro? Era um perigo mortal!
A chuvarada continuou sua pesada cantilena. O quintal não deu vencimento a tanta água. As galinhas já tinham corrido para o poleiro, debaixo da mangueira espada. Os bacorinhos pareciam sufocados pelo aguaceiro. Mas os patos danavam-se a grasnar, nadando para lá e para cá. Para eles, era uma festa.


Tarde de “trevoada”  ::  Por José Lima Santana - Foto: Divulgação/internet

Tarde de “trevoada” :: Por José Lima Santana - Foto: Divulgação/internet


O ribombar dos trovões era sequenciado. Primeiro, um estrondo maior. Depois, um longo estalar sequenciado. Prummmm! Praparapapá... Em casa, todos calados. Fazia mal conversar ao cair de “trevoadas”. Vovó recolheu-se ao quarto. Pôs-se diante do nicho de seus santinhos, a orar. Orou para Santa Bárbara amenizar o furor da “trevoada” e para Santa Clara fazer clarear o tempo. Ao que parece, vovó entendia que chegava de chuva. Mas, meu avô sempre dizia que chuva era sempre bem-vinda, desde que viesse em paz, que não desmantelasse as casas dos mais pobres, que eram casas de sopapo, de taipa. Aquela chuva, porém, uma hora depois, já era demais. As orações de vovó haveriam de ter bom efeito. Deus haveria de fazer parar a festa de seus anjos. Eles estavam mesmo danados. E anjos ficavam danados? E eu lá sabia dessas coisas!
Ora, as preces de minha avó não estavam sendo ouvidas. Ia-se ver, ela não estava rezando com muita fé. Ela precisava apressar a ave-maria e o padre-nosso. Era o que se chamava de rosário apressado. Rezar de carreirinha, ligeiramente, quase atropelando as palavras. Nos meus oito anos, eu não entendia direito a lição da professora: como era que a água subia dos rios e dos mares e se sustentava lá em cima, para, depois, cair, às vezes assombrando o mundo, como naquele momento?  
Teria mais gente rezando, além de minha avó, para fazer as chuvas darem uma trégua? O padre Miguel também rezava? Para mim, o padre deveria ter umas rezas mais fortes que as de minha avó. Sabia-se lá. O certo era que a chuva continuava no mesmo tom. Os trovões e os relâmpagos também. As águas carregavam muita bagaceira. A rua de minha avó era de chão batido. Haveria de ficar um lamaçal da desgraça. O açude não comportaria tanta água. O sangradouro do trampolim botaria jatos de água com mais de um metro de altura, fazendo o riacho que ali nascia lamber suas margens, pular para fora delas, arrancar cercas e até carregar animais desatentos. Uma vez, o vizinho de terras de avô perdeu um bezerro, que as águas do riacho carregaram para longe. O bicho apareceu morto no terreno de “seu” Oscar, na Caiçara.
Enfim, após mais de uma hora e meia de dilúvio, a “trevoada” serenou. Os trovões e os relâmpagos foram amainando. Tomaram outro rumo. Subiram para o sertão. Foram se danar noutras paragens. Levaram as chuvas para outras terras sedentas. As orações de minha avó deviam ter ajudado. Da janela, que vovó permitiu que eu abrisse, vi a água descendo com força. Garranchos e até peças de roupa miúda eram arrastados. Sapos pulavam no terreiro. Desentocaram-se. No tempo seco eles sumiam. Mas, bastava uma chuvinha de nada, e eles apareciam, pulando. E tinha cada cururu grandão!  
Meu avô Dioclécio não tardou a chegar do pasto. Como eu previa, ele disse que a cheia do açude fez do sangradouro do trampolim uma cachoeira. Imaginei o aguaceiro descendo pelos degraus de cimento, feitos no fim dos anos 1930. Uma notícia triste, muito triste, meu avô nos deu. A bezerrinha da vaca Mimosa foi apanhada pelo riacho e sumiu. Era uma linda bezerra branca, que eu dava de comer na mão. Quase desmamada, ela gostava de palhas de milho verde lambuzadas com cabaú. Era a minha bezerra, que vovô me deu assim que ela nasceu. Perdi a minha bezerra. Chorei.
Não tomei café naquela noite. Chorei como um desvalido. Meu avô disse que, no dia seguinte, iria procurar a bezerra. Quem sabia se ela não conseguira escapar da fúria das águas do riacho? Minha avó, para me consolar, disse que compraria outra bezerra para mim. Não tive consolo. Eu queria a minha bezerra branca, a que comia em minha mão. Dindinha, que gostava de me azedar, disse, então, que a minha sorte era curta. Por isso a bezerra fora carregada pelas águas. Diante da constatação fatídica de que minha sorte era curta, meu choro só fez aumentar. De meus olhos as lágrimas caíram em cachoeira, como as águas descendo pelos degraus do trampolim do açude. Aos oito anos, eu não passava de um menino de sorte curta. Aquilo, para mim, soou de forma terrível, como terrível fora aquela tarde de “trevoada”.


(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE


Publicado no Jornal da Cidade, edição de 10 e 11 de maio de 2015. Publicação neste site autorizada pelo autor.


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