11 de junho de 2017
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 10/06/2017 às 00h10

Associação Ordem e Progresso: o presidente cai ou não cai? :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

Marcelino de Pedro Tibiriçá do finado Maneca de Chica, este, antigo proprietário da fazenda Lagoa Funda, uma porção de terra cheia de pedregulhos e cascavéis, e aquele, proprietário da Viação São Pedro de Alcântara, ou seja, da única marinete a fazer o transporte regular da cidade de Monte Azul para a capital do estado, entrou em crise. Crise profunda. Marcelino candidatara-se a vice-presidente da Associação Ordem e Progresso, na chapa encabeçada por Zenilma Pindaíba de Maria Rosa de Sá Domitila de Tinoco dos Araçás. Zenilma era uma mulher do tipo jogo duro. Outrora, ela fora ativista do Grupo Bota Pra Quebrar. Um grupo meio incendiário, nos tempos bicudos e de chumbo da ditadura militar. Marcelino fora, assim, o vice-presidente de Zenilma. A chapa passou raspando, mas ganhou a eleição contra Décio Mineiro, que quase comemoraria a vitória. Quase. Derrotado, inconformado, impetrou um recurso contra a eleição de Zenilma/Marcelino por abuso de poder econômico e outros bichos.


A cidade ficou dividida. Os mais pobres, mas, não só estes, ficaram ao lado de Zenilma. Os mais ricos e os mais ou menos ficaram, em maioria, ao lado de Décio Mineiro. Nas discussões em bares e esquinas, a divisão mostrava-se presente. Na esquina do diabo, confluência das Ruas do Cavaco e do Embeleco, formou-se uma roda de alentada discussão, numa noite de sexta-feira. Bem em frente ao sobrado da vitalina Cícera de João Pinheiro. A velhota botou os faladores para correr, despejando sobre eles um penico de mijo da noite anterior, que ainda estava no bidê do quarto. Imaginem o “cheiro”.
    
Ora, no decorrer do mandato, Zenilma destrambelhou-se. Adepta de boas pedaladas, ela acabaria caindo da bicicleta numa noite escura. Coitada! O tombo foi tão infeliz que a tirou de circulação. Embora acidentada e de forma grave, com a coluna vertebral seriamente avariada, e sem poder cumprir com as funções inerentes à presidência da Associação, ela insistia em ficar à frente dos negócios. À surdina, Marcelino tramava para o afastamento da presidenta. O Conselho Deliberativo da Associação Ordem e Progresso abriu um procedimento contra Zenilma. E depois de idas e vindas, de muito falar e de muitas tramas, eis que Zenilma caiu. Mancomunados, Marcelino e membros do Conselho vibraram. Marcelino passou a ser o presidente. As más línguas dos puxa sacos de Zenilma apelidaram-no de Mordomo de Drácula. E os adeptos destes apelidaram Zenilma de Bucha de Canhão. Nos dois casos, não sei por quê.
    
Nas mãos de Marcelino, a Associação Ordem e Progresso não andou um palmo. Continuou se arrastando como vinha há algum tempo. Os associados chiavam, mas Marcelino fazia vistas grossas. De chofre, surgiram denúncias contra o presidente Marcelino. Denúncias graves. Aliás, gravíssimas. Os membros da Associação e toda a cidade arrepiaram-se. As mídias soltaram os cachorros contra Marcelino. E as mídias daquele tempo eram os pasquins que ocasionalmente e à surdina eram afixados na porta central da igreja matriz. Marcelino ficou encurralado como se numa gangorra estivesse. Cai não cai.
    
A cidade sofria. A divisão das pessoas em dois blocos antagônicos, apelidados de coxinhas e mortadelas causava confrontos e aborrecimentos. Os ícones de cada bloco estavam enfiados na lama até o cocuruto da cabeça, mas os seus cupinchas os defendiam. Marcelino, Zenilma e Décio, além de muitos outros membros da Associação Ordem e Progresso, como o ex-presidente da Associação, tentavam sobreviver às duras penas. Uma camarilha se espalhara sobre a cidade. Vergonhosamente. Estupidamente. Cada um dos implicados nas mais diversas e graves denúncias deveria comprar para si um frasco de óleo de peroba para lubrificar a própria cara desavergonhada.
    
No beco do fedor, lugarzinho miserável onde eram jogadas muitas imundícies e onde sujeitos promíscuos obravam à vontade, um sujeito gozador, Manelito de Justino Boca Preta, tipo de poeta popular debochado, escreveu numa faixa de pano: “O mundo está perdido / Tudo está esculhambado / O povo foi iludido / Mas o troco há de ser dado”.
Passando pelo beco, Julinha Língua Bendita exclamou: “Que merda! É bosta pra todo lado”. Coitada, sem querer, atolara-se na fedentina. E era assim mesmo como se sentia o povo da cidade. Atolado. Por causa das porcarias que as pessoas da Associação Ordem e Progresso fizeram. Tais porcarias emporcalhavam a cidade e respingava no povo. O povo, por sua vez, embora lascado, dividido em coxinhas e mortadelas, não se unia. Uns, nas janelas, batiam panelas; outros berravam nas ruas. Sem a união do povo, os polvos estendiam os seus tentáculos lamacentos sobre a cidade. Quem os deteria? Um tribunal? Qual? Nenhum, talvez O povo criou-os. Embora eles se deformassem no decurso do tempo. Somente o povo, unido, um dia, sabe-se lá quando, os baniria da Associação Ordem e Progresso.


Marcelino cairia? As lagartixas de parede haveriam de sustentá-lo? Vitória popular ou vergonha coletiva?
Povo nenhum merecia gente do tipo daqueles miseráveis que tomaram de assalto a Associação Ordem e Progresso. Nem daqueles que da Associação queriam se apoderar. Eram, todos, farinha do mesmo saco. Uma cambada só.


Que Deus velasse pelo povo.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE


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