12 de março de 2019
POR: ASN
Fonte: ASN
Em: 11/03/2019 às 16h55

Mulheres do Baixo São Francisco superam a pobreza com artesanato da palha do ouricuri


Um grupo de mulheres artesãs de baixa renda familiar, moradoras de uma vila operária no município de Neópolis, é exemplo de superação num cenário de aparente falta de oportunidades. Elas formaram a Associação Artesanal Formiguinhas em Ação, que tem como principal produto o artesanato produzido com a folha da palmeira do ouricuri. Com a ajuda de parcerias, transformaram a atividade manual em um verdadeiro empreendimento e foram além: geraram renda sem impacto ambiental negativo.


Mulheres do Baixo São Francisco superam a pobreza com artesanato da palha do ouricuri (Foto: Ednilson Barbosa)

Mulheres do Baixo São Francisco superam a pobreza com artesanato da palha do ouricuri (Foto: Ednilson Barbosa)


O trajeto do grupo teve sua primeira fase entre 2002 e 2005, com produção informal. Entre 2005 e 2016 elas aprenderam noções de mercado, aperfeiçoaram seus produtos e formalizaram a Associação, com apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). A partir de 2017, com a intervenção do Projeto Dom Távora, financiado pelo governo de Sergipe, por meio da Secretaria de Estado da Agricultura e com recursos do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), foi finalmente possível agregar máquinas e equipamentos para elevar a produção, aumentar o número de participantes do grupo produtivo para 22 artesãs, e ampliar a diversificação dos produtos.


“Enquanto nossos maridos estavam na fábrica de tecelagem, nós ficávamos em casa sem perspectiva pessoal”, conta Rubenice Pereira de Santana, uma das fundadoras da associação. Ela conta que o grupo surgiu há 15 anos, quando quatro moradoras da Vila Operária Passagem bordavam tiras de havaianas com miçangas para revenda e recebiam R$ 0,50 por sandália. Depois passaram elas mesmas a bordá-las e vendê-las na feira livre do município. Cansadas dessa rotina, decidiram que era chegada a hora de dar novo rumo às suas vidas. Aprenderam a produzir profissionalmente o artesanato com a palha do ouricuri, planta abundante na região.


No início foram buscar empréstimo no Banco do Nordeste e qualificação no trançado da palha de ouricuri com o Sebrae. Sabiam então fazer cestos, calcular seu preço, comercializar – e seus produtos começaram a mofar no inverno. Com alunos de Química da Universidade Federal de Sergipe, aprenderam a preparar a palha para ficar resistente a fungos, valorizando a qualidade dos seus produtos.


O grupo de mulheres foi crescendo e, em 2007, elas formaram a Associação Artesanal Formiguinhas em Ação, cuja presidente, Alexsandra da Silva, explica a origem do nome. “Nos inspiramos na fábula das formigas que trabalham cooperando umas com as outras no verão, para terem reserva de alimentos no inverno. Também tem a ver com a colheita: no inverno não tem como fazer a secagem da palha. Por isso temos que fazer um estoque no verão, igual às formiguinhas”, revela.


Matéria-prima e estruturação
A principal matéria prima deste artesanato vem da natureza – a folha da palmeira ouricuri. Para evitar dano ambiental, o grupo adotou como princípio o extrativismo sustentável da palha, para não causar morte prematura da planta e a consequente extinção da espécie. As artesãs retiram apenas uma folha nova por planta, com uma coleta por ano na mesma planta, além de fazerem alternância entre as áreas de coleta. Com essas medidas, preservam cerca de 600 plantas por ano, uma vez que retiram 100 palhas – o equivalente ao número de plantas para as seis coletas anuais. Outro fator que contribui com a sustentabilidade é a diversificação do artesanato, de modo que um número cada vez maior de plantas pode ser preservado.


O Plano de Investimento Produtivo feito com recursos do Projeto Dom Távora para a associação ajudou a cobrir algumas lacunas, como a expansão do grupo de produção, a aquisição de máquinas, equipamentos, matéria prima e divulgação. Para tanto, foram liberados recursos financeiros para aquisição de máquinas de costura industrial, motores, serras e suprimentos para produção do artesanato, como tinta, tecidos, lixas, agulhas, pincéis, massa, etc. O recurso também serviu para custear capacitação e assistência técnica.


A intervenção atraiu novas artesãs, com habilidades diferentes. Para manter o nível de qualidade, as estreantes seguem cursos de formação e trabalham com maior regularidade. Agora existem subgrupos especializados na produção de luminárias, croché, panos de prato, biscuit, ponto cruz e pintados. “Não ficamos dependendo apenas do produto da palha”, diz a tesoureira Jaqueline Santos.


As próprias mulheres artesãs identificam resultados qualitativos coletivamente: ampliação e diversificação dos produtos – com melhor acabamento; acréscimo da palha de ouricuri em produtos que já faziam; melhoria na apresentação do produto e da embalagem; melhoria do processo de controle da produção e do estoque. São evidências do amadurecimento da gestão do negócio, o que inclui o cálculo do preço do produto e a divisão de tarefas.


Produção e geração de renda
É evidente a melhoria da autoestima das mulheres, que hoje contribuem com a renda familiar e se orgulham de sua atividade profissional. “Eu acordo cedo, cuido da casa, preparo as crianças para a escola e vou trabalhar no artesanato. Trabalho de oito a 10 horas por dia, feliz com os resultados. Grande parte do material de construção de minha casa própria foi adquirida com a venda de artesanato e dos cursos que dei. Fui contratada para ensinar o trançado em palha a outros municípios. Eu não esperava esse convite do governo para ser instrutora de artesanato em palha de ouricuri. Foi uma experiência muito feliz”, relata Rubenice Pereira.


Ela é a segunda associada que conseguiu deixar a vila operária e comprar casa própria. As demais já adquiriram eletrodomésticos, motocicletas e contribuem com a renda familiar. Com idades entre 29 e 45 anos, a maioria das participantes considera-se em plena vida ativa. Não vêem a idade como fator limitante, mas sim o baixo nível educacional e a dificuldade de encontrar com quem deixar os filhos para participar das atividades coletivas. Entre os 24 associados, há dois homens que cuidam da coleta das palhas. As outras 22 são mulheres organizadas conforme a expertise de cada uma. No grupo, 15 produzem artesanato de palha [40 peças por mês], enquanto duas pintam 100 peças em tecido. No mesmo período, quatro mulheres trabalham com Biscuit, originando 50 peças; duas crocheteiras para 50 peças e mais uma para 50 luminárias artesanais.


Com seis tipologias de artesanato, produzem peças cujo custo varia entre R$ 7 (pano de prato) e R$ 100 (mandala grande). Pelo controle do livro-caixa da associação, as artesãs novatas têm uma renda entre R$ 150 e R$ 200. Já as mais antigas, com maior habilidade na produção, conseguem produzir mais e alcançar uma renda mensal entre R$ 300 a R$ 500. Recebem do que conseguem produzir e repassam uma parte para o fundo rotativo da associação. Segundo o regulamento interno do grupo – que elas seguem fielmente –, toda associada contribui mensalmente com R$ 20, sendo R$ 5 em espécie e R$ 15 em peças, resultando em R$ 440,00 de renda para o caixa da associação. Além disso, devolvem para o fundo rotativo o valor da matéria-prima utilizada.


Ainda conforme o regulamento, cada artesã tem o compromisso de entregar no mínimo cinco peças para venda por mês, totalizando 110. Tomando o preço médio estimado por elas de R$ 30 por peça, têm-se a entrada de R$ 3.300 em peças a cada mês. A tesoureira da associação informou que iniciaram o ano com um estoque de 153 peças artesanais à venda na sede, o que soma R$ 3.810. A associação é cadastrada no Programa do Artesanato Brasileiro, o que dá a elas alguns direitos e possibilita sua participação em feiras em Aracaju, Belo Horizonte, São Paulo – além das feiras regionais e locais. Nestas ocasiões conseguem triplicar o rendimento normal do mês, já que qualidade do artesanato virou referência e tem boa saída nos eventos.


O exemplo comprova que a garra das mulheres artesãs do Baixo São Francisco foi a força motriz do seu sucesso. Em busca de parcerias para realizar aquilo que acreditavam, conquistaram o local para produção, cedido em comodato pela Fábrica de Tecidos Peixoto; empréstimos no Banco do Nordeste e recursos financeiros junto ao Projeto Dom Távora; conhecimento para combater os fungos da palha seca com Universidade Federal de Sergipe; e para suprir a necessidade de organizar o grupo de produção e oficializar a associação, encontraram ajuda no Sebrae e na Emdagro. Superação de dificuldades e conquista de objetivos.

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