20 de agosto de 2018
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 17/08/2018 às 23h28

TANCINHA DE RUGE, CHINELO E TAMBORIM :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo Click Sergipe)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Click Sergipe)

Agosto de 1961. Uma terça-feira de pouco sol. O mês mal começara. A terra começava a enxugar com o vento soprando do mar para o interior. Mês de frio, como se no Nordeste, salvo uma ou outra localidade montanhosa, fizesse frio de verdade. Era uma aragem de brejo, como se costumava dizer. Porém, as pessoas do litoral, por exemplo, choramingavam quando se deslocavam para certas cidades do sertão, naquela época do ano. 


Naquele dia de pouco sol, muitas nuvens pareciam confabular na abobada celeste. Não tardaria e uma chuvinha de fim de inverno haveria de cair. Na Praça da Matriz, algumas mulheres conversavam em frente à igreja, carente de uma demão de tinta. No lado direito da igreja ficava o armazém de Lailson de Zeca do Alambique. As portas da venda acabaram de ser abertas. Bem em frente à igreja, testa com testa, ficava a casa paroquial, onde o padre Maneca Monte refestelava-se no banho de sol, no quintal cheio de fruteiras. Logo mais, bateria para o bucho um bem composto prato de cuscuz com leite de nata amarelada, alguns ovos estrelados e um bom pedaço de carne de sol, do coice da alcatra, como ele gostava. A avantajada pança agradeceria. 


Dona Valdete do finado Pedro Pombo varria o chão da igreja, quase praguejando por causa da vassoura em petição de miséria. “Daqui a pouco só tem o cabo”, vivia a repetir nas últimas semanas. A renda da Paróquia era diminuta. O padre mantinha-se com o ordenado de inspetor de alunos da rede estadual de ensino. Era a sua sorte. O município até que era próspero. Criava-se muito gado bovino. Mas, as maiores propriedades rurais estavam nas mãos de três ou quatro famílias. Uma grande concentração de riqueza. O comércio era movimentado, pois para ele carreavam-se pessoas das cidades circunvizinhas, que eram de porte menor. Mas, as coletas nas missas não rendiam muito. Maria Benta, beatíssima, igrejeira como ela só, prometera uma vassoura nova. Dona Valdete aguardava. 


Lá nos confins da cidade, no subúrbio Cruzeiro Velho, Tancinha acordou sem ânimo. Uma moleza dobrava-lhe as juntas. No barraco de taipa e chão batido, o frio da madrugada lhe inquietara. O vento entrava sibilante pelas frestas entre as paredes e o telhado. Casa diminuta de apenas três pequenos cômodos, tudo muito apertadinho. Maldosamente, as pessoas a chamavam “Tancinha de ruge, chinelo e tamborim”. Fora-se o tempo em que ela era cobiçada pelos homens libertinos. Tancinha caíra na vida livre e de porta aberta aos 15 anos. Expulsa de casa pelo pai rigoroso, dos tempos do carrancismo, ela foi cair na casa mal falada de Albertina Sacode a Saia.
 
Naquele momento, ela ainda não tinha chegado aos 45 anos, mas, já era uma velha. 


Tancinha de ruge (rouge, em francês), chinelo e tamborim. Desde que deixou de ser procurada pelos homens, para sobreviver ela tocava tamborim e cantarolava umas canções remendadas no dia da feira semanal da cidade, no Beco de Jair, que abrigava alguns bares de décima quinta categoria, local dos bebinhos contumazes e por onde os homens a cavalo passavam, vindos dos povoados para a cidade. Ela lambuzava as faces com o tal pó, chamado ruge, e calçava um velho chinelo, remendado com um cordão de barbante. 


Desde que caíra em desgraça, pelas mãos de um caixeiro-viajante, Tancinha fora expurgada pela família. Pai, irmãos e irmãs, tios e tias, primos e primas nunca mais lhe dirigiram a palavra. A mãe fora a única, que, escondida do marido, encontrava-se com ela de vez em quando, muito chorosa. Coração de mãe é terra de especial feitura. Todavia, Dona Graça falecera menos de dois anos desde que Tancinha desgraçara-se. Morrera de parto. Era o seu décimo quarto filho. Tancinha não pôde ir ao enterro da mãe. Fora avisada que não pisasse os pés na casa, nem no cemitério. A dor de filha cortou o seu coração. E o cortaria por toda a vida. Desamparada, muitas vezes por dias e noites ela chorava a perda da mãe. A cada lembrança, novo choro. A cada choro, o coração sangrava. 


Cerca de dois meses atrás, “seu” Belarmino de João Treme-Treme, pai de Tancinha, sofreu uma queda do cavalo. Quase morreu. Tancinha soube do acidente por um antigo vizinho da família, que lhe valeu com uma nica, no dia da feira, quando ela, de ruge, chinelo e tamborim, garimpava a sobrevivência. O coração de Tancinha era de ouro em pó. Sempre socorrera as companheiras, quando estas estavam em dificuldades. Do pouco que ganhava com o corpo, ela servia a quem precisasse. Não era de guardar rancor de ninguém. Ela entendia que a família agira de modo certo, ao bani-la do seu convívio, pois ela a desonrara. Era o entendimento de quem não tinha lá muito entendimento das coisas. 


Ao saber do ocorrido com o pai, Tancinha fez uma promessa ao Menino Jesus de quem ela tinha na parede do quarto uma figura desbotada. Se o pai ficasse bom, ela mandaria tecer uma toalha para o altar da Matriz. Depois de um mês e meio num hospital da capital, “seu” Belarmino foi melhorando até ficar em bom estado de saúde. Tancinha, então, vendeu umas poucas galinhas que tinha no quintal e mandou Carmosina de Zé do Arroz Doce tecer a toalha. O dinheiro das galinhas foi suficiente para comprar o pedaço da cambraia de linho. O feitio ela pagaria depois, pois Carmosina lhe fiava. Era a filha da madrinha de batismo de Tancinha. Mulher sem preconceitos ou arrogâncias. 


Naquela manhã de terça-feira de agosto, Tancinha, apesar da moleza e de uma dor no peito, dorzinha miúda, que vinha e ia, botou-se para a igreja, a fim de levar a toalha para o altar. Ela a entregaria a Dona Valdete, pois o padre poderia não aceitar, devido a sua condição de mulher perdida. 


Ao chegar à igreja, Tancinha ajoelhou-se. Dona Valdete estava na sacristia, varrendo. Ao ajoelhar-se, tombou. O corpo magricela caiu como uma pena, uma plumagem. O coração de Tancinha não resistiu à dorzinha que, naquela manhã, vinha e ia. 


Ao ser informado da morte de Tancinha e da promessa que fez pelo restabelecimento do pai desalmado, conforme lhe relatou Carmosina, o padre Manoel Monte foi à casa de “seu” Belarmino, que respondeu não ter uma filha chamada Tancinha, pedindo desculpas ao padre, apenas por respeito a ele. De nada valeram os argumentos do padre. Coração de pedra bruta. 


O caixão de pobre foi custeado pela Prefeitura Municipal, a pedido do padre. E ele seguiu à frente do cortejo fúnebre. No cemitério, foi celebrada a missa de corpo presente. O padre Manoel Monte, na homilia, discorreu sobre o perdão. Ele era um orador de talento. Muita gente chorou com tão belíssima pregação. No encerramento, ele disse: “Eis aqui, não um corpo, que vai ser sepultado, mas, sim, uma flor que, esmagada no jardim do mundo, será recolhida com regozijo pelos anjos no jardim do céu”. 


Por causa da homilia proferida no cemitério, o padre Manoel Monte seria denunciado ao senhor Bispo, como sendo protetor das putas. Mas, para a sorte do padre, o Bispo era um verdadeiro homem de Deus. E, como tal, o abençoou.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE


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