09 de julho de 2018
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 07/07/2018 às 00h33

Os setenta e sete anos do ex-governador João Alves Filho :: Por José Lima Santana

A VIDA COMO ELA É
(Os setenta e sete anos do ex-governador João Alves Filho)


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo pessoal)

Nem sempre sabemos por onde haveremos de ir ou o que poderemos encontrar ao longo da caminhada. Não temos à nossa disposição uma eficiente bola de cristal. Ainda bem. No último dia 3, uma filha postou no Facebook uma foto do pai e uma mensagem sobre o seu aniversário. Segundo a filha, o pai nem sabia que estava completando 77 anos de vida. Mas, neste momento, há de se perguntar: que modo de vida? Uma vida carcomida por uma grave enfermidade. A expressão de alheamento do fotografado com o olhar perdido é constrangedora. Especialmente para quem o conheceu de perto, para quem com ele conviveu por longo tempo, na vida privada ou pública. 


As pessoas dizem que “a vida não é nada”. Ou seja, estamos sujeitos a qualquer situação, inclusive, claro, à morte. A qualquer tempo. A vida é, sim, um sopro. Pode se extinguir em um décimo de segundo. Pode se deteriorar lentamente, por curto ou longo tempo. É por isso que a vida deve ser vivida intensamente enquanto dela pode-se dispor em toda a sua plenitude. Porém, nesse viver intensamente, a vida não deve ser desperdiçada. Deve ser palmilhada palmo a palmo, partilhada, momento a momento. 


Um dia, a pessoa pode estar nos píncaros da atividade laboral, nos solavancos da vida política, no estrelato da vida social, enfim, no auge da glória momentânea de que muita gente gosta. Tudo, todavia, se torna efêmero. A vida passa como as águas de um regato que se hão de perder na imensidão do mar. Sem que uma só gota das águas daquele regato possa ser distinguida depois que elas se entregam ao oceano. Águas absorvidas, diluídas, sem guardar a identidade de outrora. Assim mesmo é a vida. 


Para quem não tem fé, a vida é uma marcha autônoma, que se há de findar quando o corpo deixar de ter movimento, por completo. Exauriu-se o corpo, adeus vida!


Contudo, para quem tem fé, para quem almeja cruzar a linha do não vir a ser, para deveras continuar a ser, numa vida essencialmente espiritual, a vida ganha nova dimensão. Para os cristãos diretamente apegados aos ensinamentos dos quatro Evangelhos (católicos, protestantes, ortodoxos etc.) essa outra dimensão traduz-se na ressurreição. Para os espíritas e alguns diferentes segmentos religiosos orientais, é a reencarnação. 


Mas, eu não me proponho, aqui, a dissertar sobre questões de fé. Eu tenho a minha, muito bem sedimentada no Evangelho de Jesus Cristo, e, por isso mesmo, inabalável, graças a Deus. O que quero levar à discussão é a constatação que fiz e que muitas pessoas fizeram com relação à foto do pai, que a filha expôs e ao seu comentário. 


O gesto da filha não deixa de ter sido nobre ao falar do pai com o carinho demonstrado. 


Disse a filha, no seu texto postado no Facebook: “Confesso, para mim é muito difícil ver meu pai com os olhos miúdos, perdidos no horizonte, com sua gargalhada enfraquecida dentre tantas outras coisas”. E mais: “Não é fácil para mim (sic) ver MEU PAI o maior homem da vida pública Aracajuana / Sergipana, com Alzheimer, sem se lembrar de coisas e fatos, como seu aniversário de casamento, de idade, pessoas e fatos históricos da sua biografia”. 


De fato. Que doença terrível é essa do tal “doutor alemão”, como se costuma dizer no vulgo, o Alzheimer! Entretanto, toda doença incurável ou de difícil cura é horrenda. Aliás, basta ser doença para ser uma coisa imprestável. O mal de Alzheimer aprisiona a pessoa num mundo de alheamento, de esquecimentos. A mente aprisionada de alguém dilacera muito mais as pessoas que convivem com o portador da doença do que o próprio doente. Este está ao desabrigo da normalidade da memória, mas os seus circundantes estão ao desabrido da impotência, pois não podem fazer muito pelo ente querido que, em parte, “deixou de viver” na sua plenitude.


Ainda são palavras da filha desalentada: “Lembro do marido e pai, que largou a família por um POVO que ele tanto amou, mas tanto, tanto, causando raiva na família, pois estava sempre ausente nos momentos mais importantes para todos nós”. Não é fácil fazer tal afirmação. Mas, ela não deixa de ser verdadeira. Quem se dedica a uma atividade ou a uma causa, quem se deixa absorver por uma ou por outra, acaba, sim, caindo no desgaste da falta de convivência familiar mais estreita. 


Quem viu de perto o dinamismo de João Alves Filho, nos seus três mandatos como governador (e eu trabalhei com ele, nesses três mandatos), sem falar do administrador público municipal que desabrochou à frente da Prefeitura de Aracaju, na segunda metade da década de 1970, levado pelas mãos do governador José Rolemberg Leite, não poderá jamais conceber o homem de “olhos miúdos, perdidos no horizonte, com sua gargalhada enfraquecida dentre tantas outras coisas”, como disse a filha Aninha. Não falo de sua última participação na vida administrativa, como prefeito de Aracaju. Tanto não falo que não aceitei o seu convite para ajudá-lo. José Carlos Machado, por exemplo, então vice-prefeito, sabe disso, ele que tanto insistiu para que eu colaborasse com o prefeito. Eu tinha outros propósitos: a vida eclesial me chamava e eu não me sentiria bem na gestão municipal por alguns motivos de ordem pessoal, que nada tinham a ver com a pessoa do prefeito. 


A vida é como ela é. Ninguém escapa de seus tentáculos. Uns são mais enlaçados do que outros. Uns mais cedo; outros mais tarde. Há laços frouxos; há laços muito apertados. Há laços terrivelmente apertados.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE 

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