11 de setembro de 2017
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 11/09/2017 às 00h00

A bandeira enterrada :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

Maneca de João de Juarez do Tabocal era dado a ver visagens. Medroso, até um farfalhar de folhas de bananeiras lhe parecia sussurro de alma penada. Naquela noite escura como breu, ali estava ele, juntamente com Marcolino de Sá Maninha de Paulo Zambeta e Valtinho Caxangá, para, sorrateiramente, abrirem uma cova rasa, no cemitério da cidade. Cem reais para cada um era a paga prometida por Juca Berro Alto, presidente do Eldorado Futebol Clube, que, há dez anos, não ganhava um título no campeonato estadual de amadores. 


Juca era o eterno presidente do clube. Contava mais de trinta anos que ele se instalara na presidência para não mais sair. Dali não saia, dali ninguém lhe tirava. Todavia, um decênio sem títulos, para o maior ganhador de campeonatos de amadores no estado era insuportável para os torcedores. Os sócios antigos começaram a minguar. O arremedo de estádio, sem gramado, a poeira tomando conta, o alambrado carente de urgentes reparos e com tudo o mais prestes a desmoronar, inclusive a longevidade presidencial de Berro Alto. Uma providência deveria ser tomada. Jogadores de casa e de fora, técnicos dali e dacolá, nada dava certo. Um tal Humberto Guedes, que se dizia endinheirado, estabelecido na cidade como apontador do jogo do bicho, ameaçava tomar a presidência de Juca, na eleição de novembro, conforme determinava o estatuto do Eldorado. O filhote de bicheiro era sócio do clube com tempo para ter o direito de candidatar-se. 


O presidente Juca Berro Alto andava indócil, inquieto. O seu reinado estava seriamente ameaçado. Além do mais, Humberto Guedes já tinha patrocinado a associação ao clube de dezenas de pessoas e pagava religiosamente as suas mensalidades. Seriam seus eleitores de cabresto, e que poderiam fazer a diferença, na eleição de novembro. 


O roupeiro do clube, Vítor Munheca Mole, numa reunião dos dirigentes e dos mais aproximados destes, disse que havia uma cabeça de jegue enterrada nalgum canto, que impedia o Eldorado de voltar a ganhar títulos. Dez anos! Clube nenhum poderia resistir a tamanha pendura. A não ser o Botafogo, no Rio, e o Corinthians, em São Paulo, que sofreram mais do sovaco de aleijado, no passado, para voltarem a ganhar títulos. Como voltar a ganhar? O Eldorado, claro. Ah, Martinha de Américo Olho de Peixe Morto lembrou que, se não havia uma cabeça de jegue enterrada, havia, sim, uma bandeira do Eldorado enterrada! Rebuliço, frisson na galera presente à reunião. Era a mais absoluta verdade. 


Tercinho de Mariana de Zeca Chupetinha era goleiro do Eldorado. Um sujeito com uma envergadura formidável, que se gabava de possuir o bigode mais cheio da face da terra. Um bigodão de arame. Alto e forte, cujos braços abertos, quase tocavam nos postes da trave. Um gigante! As defesas memoráveis de Tercinho jamais poderiam ser esquecidas. Ele atuou por mais de vinte anos, defendendo o Eldorado. Recebeu propostas até de clubes profissionais da capital. Mas, ele era eldoradense. Padeiro de profissão, quase não treinava, porque a profissão exigia a sua presença na padaria, nas tardes em que os treinos geralmente se davam. Nem precisava treinar. Pois, após tantos anos defendendo o arco do Eldorado, e já afastado dos gramados, eis que o maior goleiro da história dos campeonatos de futebol amador do estado veio a falecer, picado por uma aranha, uma viúva negra. Veneno infeliz. Não teve remédio que lhe acudisse. Morte em pouco tempo. 


Tercinho foi velado na sede do clube. Um sentimento de dor imensa tomou conta da cidade. Velório concorrido. Enterro ainda mais. Muito mais. A bandeira do clube do coração cobriu o caixão. E ninguém se lembrou de retirá-la na hora do caixão baixar à sepultura. Dez anos se passaram e, desde então, o Eldorado não ganhou mais nenhum título. Que lembrança a de Martinha de Américo Olho de Peixe Morto, naquela reunião! Ali estaria, por certo, o azar que perseguia o Eldorado. Não havia nenhuma cabeça de jegue para se desenterrar. Era a bandeira do clube, que deveria ser desenterrada. Ou o que dela restasse. Tercinho fora enterrado em cova rasa, mas sempre muito bem cuidada pelo coveiro Vardo de Zé Martelo. Veludos e cravos de defunto eram as flores que enfeitavam a cova do inesquecível goleiro. O vermelho e o amarelo das cores do Eldorado. 


Naquela noite escura como breu, ali estavam os três, um medroso, Maneca de João de Juarez do Tabocal, e dois bêbados, Marcolino de Sá Maninha de Paulo Zambeta e Valtinho Caxangá, para abrir a cova de Tercinho e dali retirar os restos, não os mortais do imortal goleiro, mas, sim, da bandeira que com ele foi enterrada. 


Uma coruja piou forte nas costas dos três. Maneca urinou-se. Os outros dois não tomaram conhecimento do pio da coruja e tomaram mais uma bicada de água que coruja não bebia. Começaram a cavar. Demoraram a topar em algo, que não era apenas terra. Dois candeeiros de pé, amarrados em duas varas fincadas no chão, que estava mais ou menos mole, pois tinha chovido um pouco dois dias antes, alumiavam o ambiente. Ossos. Com cuidado, foram tirando a terra que envolvia os restos mortais do maior goleiro do mundo, segundo afirmava Bernardo Peidão, antigo técnico do Eldorado. “Bote o candeeiro mais para cá, Maneca. E fique sossegado, que se Tercinho se levantar eu queimo o bigode dele. Alma penada não se dá com fogo, Maneca”, disse Marcolino, gaiato que só ele. 


Alumiado o fundo da cova, eis que ali estavam os farrapos da bandeira vermelha e amarela do Eldorado. E a caveira de Tercinho. Banguela. Valtinho Caxangá exclamou: “Até que a caveira é mais bonita do que Tercinho quando vivo!”. Nisso, ouviu-se uma gargalhada de alguém que parecia sorrir sem dentes. Uma gargalhada mole, descachimbada, que fez Maneca sair em disparada, gritando: “Me solta, Tercinho, me solta Tercinho, em nome de Deus, me solta!”. 


Os outros dois retiraram os farrapos da bandeira do Eldorado. Cobriram os restos de Tercinho com a terra retirada. Cobriram muito mal. No dia seguinte, o coveiro Vardo encontrou a cova violada. A notícia correu a cidade. 


Era o mês de maio. O campeonato de futebol amador daquele ano estava para começar. O Eldorado acabou batendo os adversários de ponta a ponta. Campeão invicto. O goleiro, Artur de Chico do Farelo, não levou nenhum gol. Inédito. Alguns torcedores acreditavam que Tercinho saiu do túmulo para se encarnar no novo goleiro. E foi assim que o presidente Berro Alto derrotou o arremedo de bicheiro na eleição de novembro com uma larga margem de votos. E o Eldorado ganhou seis campeonatos seguidos. 


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE


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