08 de maio de 2016
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

Galo de ovo goro :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


Felismino da finada Maria Pichulinha, antigo marchante da Várzea do Sapé, viúvo carente de uma costela que lhe refrescasse nos dias de verão e lhe esquentasse nas noites de inverno, andava desassossegado. Com oitenta e dois anos de idade e viúvo há cinco anos, era cuidado por uma neta solteirona, enfezada, ruim de tanger quer estivesse de TPM, quer estivesse fora daqueles dias. Em duas palavras: uma peste. Mesmo sendo a neta preferida do velho Felismino, aturar-lhe os humores, as alterações cotidianas do astral, não era fácil. Somente uma nova mulher acalentaria de vez o marchante aposentado, que não cortava boi na feira desde dois anos antes da partida sem volta de Sá Maria Pichulinha, que tinha sido uma mulher de tinir, zelosa como nenhuma outra pudesse ter sido melhor em qualquer canto do mundo. Dava para ver, então, o desassossego de Felismino. Uma companhia de cama e mesa. Era do que ele precisava. E urgentemente.
Andaram, alguns familiares e amigos, apontando-lhe umas duas ou três mulheres, sendo duas viúvas e uma solteirona, mas eram mulheres de idades quase parecidas com a sua. Ele refugou. “Velho com velha dá mofo”, costumava dizer, gargalhando. Ora, queria, então, o velho Felismino uma mulher nova, com o frescor de lavanda no corpo? E onde poderia ele arranjar alguma em tal condição que se sujeitasse a estirar-se com um velho goguento, como dizia sua neta Ana Sofia, a enfezada? Bem. Nem tudo poderia estar perdido. Algum candidata a “enfermeira” de ocasião poderia aparecer. Tudo era possível.
Felismino andou dando uns bordejos ali e acolá. Consultou pessoas. Avaliou duas ou três mulheres que lhe pareceram em boas condições físicas e morais. Mas, não disse nada a ninguém. Eram mulheres das redondezas, vizinhas e aparentemente disponíveis. Nenhuma mocinha, que ele não era besta. Eram quarentonas ou cinquentonas, não se sabia ao certo. Se uma delas lhe caísse no bico, seria uma fartura. Um manjar dos deuses. Uma bênção dos céus. Para que uma delas pudesse aceitar uma proposta de Felismino, ele sabia que somente uma futura pensão de um salário mínimo e uma casa, que era o que ele tinha de seu, afora, ainda, algumas possíveis controvérsias jurídicas em face de sua idade avançada, não seriam o bastante. E um homem para se ajuntar com uma mulher, em qualquer situação, tinha que lhe dar algum valimento, alguma assistência de chamego. Era o natural.
Bateu-se o velho marchante para a casa de seu irmão Felisberto, dois anos mais velho, mas ainda com a sua velhinha ao lado, Dona Julieta. O irmão era aposentado da Exatoria, conhecia de muitas coisas, era, enfim, muito bem vivido e, mais ainda, muito bem relacionado com médicos e advogados, gente de cartório e até com o senhor bispo, na capital. Com o irmão, que era o mano do coração, dentre cinco que restavam vivos, pois, ao todo, foram onze filhos que os seus pais botaram no mundo, Felismino poderia se abrir à vontade. E assim mesmo ele o fez. Contou-lhe do seu intento em arranjar uma mulher e do seu temor em não ter o que oferecer, como homem. Ele se considerava, a bem dizer, uma casca de pau, sem miolo. Felisberto ponderou as palavras do irmão. E, depois, disse-lhe: “Mano, eu acho, de todo o meu coração, que esse negócio de arranjar uma mulher bem mais nova, não dá certo. Uma mulher com fogo nas partes é uma perdição para um homem da nossa idade. Além do mais, homens como a gente não nasceram para servir de galhofa na boca de qualquer um. Tome tento, mano! Eu e você somos galos de ovo goro”.
Felismino saiu cabisbaixo da casa do irmão. Não haveria um jeito de recuperar o vigor perdido, de reacender um pouco do fogo que se tinha consumido com o tempo? Quem poderia lhe dizer alguma coisa de proveito? Pensou no padre Domingos, que era seu amigo e companheiro no jogo de gamão. Porém, pensando bem, não seria agradável ter uma prosa daquela com o padre, por mais amigo que fosse. Pensou em Aristides da farmácia. Outro amigão. Este, sim, poderia lhe indicar alguma coisa de valia. Ele sabia de tudo que era remédio, de toda novidade para qualquer doença ou situação. E, assim, o marchante aposentado bateu-se para a farmácia. Conversa demorada. Proveitosa. Contudo, o teor da conversa com o farmacêutico, Felismino não revelou a ninguém.
Passaram-se alguns meses. Felismino tentou se arranjar com uma das prováveis pretendentes. Era uma viúva de cinquenta e dois anos. Bem fornida, bem apanhada, mas vacilante quanto à aceitação. Todavia, Felismino não se deu por vencido. Ao contrário, procurou se preparar para uma nova vida a dois. As visitas à farmácia de Aristides passaram a ser cada vez mais frequentes.
Uma ou outra noite, a partir da primeira visita a Aristides, Felismino passou a fazer algumas visitas noturnas. Visitas sorrateiras como ele não fazia desde antes do falecimento de Sá Maria Pichulinha, sua saudosa esposa.
Inesperadamente, na terça-feira anterior à véspera do São João, a neta de Felismino o encontrou morto, na cama. O corpo estava um pouco desconforme. Tinha uma coisa estranha. No móvel da cabeceira da cama foi encontrada uma caixa de Viagra, faltando dois comprimidos na cartela. Ao que parece, ele se preparara além da conta. Além do fôlego. Além das batidas do coração. Uma situação era certa: Felismino não aceitou morrer como galo de ovo goro.


 


(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE


Publicado no Jornal da Cidade, edição de 08 de maio de 2016. Publicação neste site autorizada pelo autor.


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